A notícia chega vestida de curiosidade científica inofensiva: estudos indicam que quem digita "por favor" e "obrigado" no ChatGPT recebe respostas mais elaboradas, mais completas, mais úteis. O sujeito que paga vinte dólares por mês a uma empresa americana descobre, encantado, que precisa também ser cordial com o produto que comprou. Não basta pagar a mensalidade; é preciso bajular o caixa eletrônico. E a imprensa, sempre solícita em transformar servidão em virtude, publica isso como se fosse descoberta antropológica, e não o relato seco de uma domesticação em curso.
Convém olhar o arranjo com calma, sem o deslumbre obrigatório. Há uma empresa privada, há um modelo estatístico treinado com texto raspado da internet inteira, há servidores que custam bilhões em energia elétrica, e há um cliente final que escreve perguntas. A relação é estritamente comercial, contratual, prosaica. O usuário paga, a máquina responde. No entanto, em algum ponto do caminho, a relação foi requalificada: agora o cliente precisa adotar o tom de quem fala com um superior hierárquico de bom humor. A inversão é tão cômica que escapa do radar. Imagine pagar pelo café e ter que agradecer ao bule pela gentileza de servir.
O fato concreto por trás dos tais estudos é banal e não justifica a mística. Modelos de linguagem são máquinas estatísticas que reproduzem padrões do texto em que foram treinados. Pedidos cordiais e bem estruturados aparecem, na base de dados, próximos de respostas longas e cuidadosas, porque é assim que humanos escrevem entre si quando levam o assunto a sério. A máquina não está se sentindo respeitada; ela está casando padrão com padrão. Confundir correlação estatística com sensibilidade emocional é o tipo de erro categorial que produz religião onde deveria haver engenharia. E a religião, como sempre, vem com dízimo embutido.
Siga o dinheiro e a comédia se desnuda. Cada "por favor" digitado consome tokens, cada "obrigado" consome tokens, e tokens são faturados. Conversas mais longas, mais educadas, mais floreadas geram contas mais gordas para clientes corporativos e maior dependência psicológica para o usuário comum, que passa a tratar a ferramenta como interlocutor e não como utilitário. O custo elétrico de bilhões de cortesias diárias recai sobre subsídios energéticos, isenções fiscais para data centers, contratos públicos de infraestrutura. Quem paga a polidez? O contribuinte que nem sabe que está pagando, e o cliente que aprendeu a pedir desculpas por incomodar o software.
Há ainda a camada cultural, e essa é a mais venenosa. Treinar uma população inteira a falar com máquinas no registro reverencial é treiná-la a aceitar que coisas inanimadas têm autoridade moral sobre ela. É o velho truque das cortes absolutistas, em que o súdito beijava o anel antes de fazer um pedido óbvio. A diferença é que o anel, agora, é alugado por assinatura, e o palácio fica em Redmond ou em San Francisco. Quando uma sociedade aprende a dizer "com licença" para um chatbot, ela já desaprendeu, no caminho, a exigir explicações de quem governa de verdade. A gentileza migra para onde não importa e desaparece de onde faria diferença.
O leitor que quiser ser educado com o seu torrador de pão, fique à vontade, é hábito inofensivo. Mas que não chame isso de descoberta, nem de virtude, nem de boa prática validada por estudos. Chame pelo nome correto: é um cliente pagante aprendendo a se comportar como pedinte diante daquilo que comprou, enquanto a empresa fornecedora cobra por palavra e ri do lado de lá da tela. As coisas são o que são. Um software é um software. E quem paga manda, ou pelo menos deveria mandar, antes que o costume da reverência transforme consumidor em vassalo e fatura mensal em tributo voluntário.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.