Existe uma pergunta que sobrevive a impérios, religiões e regimes políticos, atravessando séculos com a teimosia de uma barata nuclear: dói mais um chute nos testículos ou um parto? Pois bem, a tal da ciência, essa entidade que volta e meia desce do Olimpo para nos comunicar o óbvio com ar de revelação, finalmente se dignou a opinar. E a resposta, como toda resposta cara e demorada, é aquela que qualquer avó analfabeta daria de graça enquanto descascava mandioca: não dá para comparar. Cada dor é de uma natureza, cada nervo conta uma história, cada terminação nervosa fala um idioma próprio. Pronto, fechem o laboratório, mandem o cheque.
O chute na virilha dispara um circuito neural específico, porque os testículos, esses dois pequenos burocratas suspensos por motivos puramente termodinâmicos, compartilham inervação com o estômago e com a região lombar. Daí a náusea, o desejo súbito de morrer, a sensação de que a alma escorre pelo umbigo. É uma dor curta, brutal, fulminante, parecida com um ataque relâmpago de cavalaria medieval: chega, destrói e desaparece deixando ruínas. O parto, por sua vez, é o cerco prolongado, a campanha de inverno, a guerra de atrito que dura horas e às vezes dias, com contrações que reescrevem a noção que a mulher tem do próprio corpo. Comparar as duas coisas é como perguntar se uma facada dói mais que afogar-se devagar; ambas matam, ambas doem, ambas merecem respeito.
Mas a pergunta interessante não é a da manchete, é a de sempre: quem paga e quem recebe? Porque por trás de cada estudo sobre dor existe uma cadeia produtiva bilionária de analgésicos, anestesias, obstetrícia hospitalizada, planos de saúde que faturam alto em cada cesariana desnecessária, indústria farmacêutica que precisa convencer o consumidor de que toda dor é um problema a ser medicado, nunca uma informação do corpo a ser ouvida. A medicalização do parto, transformado em procedimento cirúrgico de rotina num país onde mais da metade dos nascimentos vira corte, não foi obra do acaso nem da preferência feminina espontânea; foi engenharia de incentivos, tabela de honorários, agenda médica racionalizada como linha de montagem fordista. Alguém recebe muito bem para que o útero seja tratado como suspeito.
Repare na arquitetura do debate, que é sempre o mesmo truque retórico em fantasia nova. Apresentam-se duas dores incomparáveis, fabrica-se uma falsa rivalidade entre os sexos, distrai-se a plateia com cócegas filosóficas enquanto a verdadeira conta passa por baixo da mesa. Funciona com tudo: direita contra esquerda, vacinado contra não vacinado, homem contra mulher, carnívoro contra vegano, sempre o mesmo circo de gladiadores enquanto o imperador conta moedas no camarote. A premissa maior é que existem dois lados; a premissa menor é que você tem de escolher um; a conclusão inevitável é que ninguém olha para o terceiro elemento, o que lucra com a briga. Toda guerra cultural mascara uma transferência patrimonial.
A verdade fisiológica, despida de patrocinadores, é singela e devolve dignidade aos dois lados. O homem que leva o golpe na virilha experimenta por dois minutos o que a natureza poupou-lhe a vida inteira; a mulher que pare carrega um trabalho que nenhum sindicato jamais conseguiria regulamentar. Não há vencedor nessa disputa porque não há disputa, há apenas a velha tentativa de transformar a experiência humana em conteúdo viral, em métrica de engajamento, em mais um item no cardápio infinito da distração contemporânea. O corpo dói porque está vivo, e estar vivo, num país onde o confisco tributário come metade do salário antes de você acordar, talvez seja a dor mais constante e menos reconhecida de todas. Essa, sim, ninguém mede em laboratório, porque o laboratório também paga imposto.
Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.