Comece pelo absurdo cotidiano. O sujeito chega em casa, encontra a sala em quinze graus, agarra o controle do ar-condicionado e fuzila o botão para cima até cravar trinta e dois. A lógica subjacente é a do forno de pizza, quanto mais alto o número, mais rápido assa. Só que ar-condicionado não é forno, é uma bomba de calor que trabalha em ritmo praticamente constante, independentemente do número piscando no visor. O aparelho não corre mais porque você mandou correr, ele apenas demora mais para desligar, gastando energia por um período mais longo enquanto persegue uma meta que ninguém precisava de verdade.

O equipamento de ciclo reverso, esse parente sofisticado do ar-condicionado tradicional, funciona invertendo o processo de refrigeração para extrair calor do ar externo e despejá-lo dentro de casa. É engenharia honesta, daquelas que entregam mais energia térmica do que consomem em eletricidade. A faixa eficiente fica entre dezoito e vinte e um graus no inverno, intervalo onde o conforto humano e a fatura mensal conseguem coexistir sem brigar. Cada grau adicionado acima disso representa, em média, dez por cento a mais no consumo, uma matemática implacável que ninguém ensina na hora da venda.

É curioso notar que a campanha contra o desperdício de energia, tão cara aos burocratas que adoram regular potência de chuveiro e proibir lâmpada incandescente, jamais chega ao ponto mais óbvio, que é educar o consumidor sobre como operar o próprio aparelho. A razão é simples, a fatura inflada é receita garantida para a distribuidora, e a distribuidora é, na maioria dos casos, concessão estatal ou empresa privada protegida por contrato cativo que exclui qualquer concorrência real. Quem perde paga em silêncio, quem ganha embolsa em silêncio ainda maior, e o discurso de sustentabilidade fica reservado para o consumo dos outros.

O detalhe técnico que cabe num parágrafo, e que vale anos de discurso ambiental, é o seguinte. Fechar portas e janelas, isolar frestas, manter cortinas pesadas baixadas à noite e abertas durante o dia para captar sol, programar o aparelho para desligar quando ninguém estiver no cômodo, eis a sabedoria milenar que substituía termostato antes do termostato existir. As civilizações que enfrentaram invernos sérios construíam paredes grossas, janelas pequenas, lareiras estratégicas. A modernidade nos vendeu uma máquina maravilhosa e nos fez esquecer que casa também é arquitetura, não apenas eletrodoméstico.

No fim, a equação é a de sempre. Quem paga é o sujeito que confia no número alto do controle remoto, acreditando que está comandando o aparelho. Quem recebe é o intermediário energético que fatura por quilowatt-hora desperdiçado em busca de um conforto fantasioso que jamais chega. A liberdade econômica do cidadão começa em coisas pequenas como essa, no entendimento de que cada gesto descuidado é uma transferência silenciosa de patrimônio. Vinte graus aquecem o corpo, trinta e dois aquecem apenas a conta. A diferença entre uma coisa e outra é a única alfabetização energética que importa.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.