Existe, nas ilhas Galápagos, um lagarto que decidiu fazer o impossível. Enquanto toda a lógica biológica dizia que répteis e oceanos não se combinam, a iguana marinha tratou essa incompatibilidade como um problema de engenharia, não como uma sentença. Mergulha até dez metros de profundidade, raspa algas das rochas vulcânicas, e quando o sal acumulado no organismo ameaça matá-la, espirrá-lo pelas narinas com a desenvoltura de quem assoa o nariz depois do almoço. Nenhum comitê aprovou esse processo. Nenhuma agência regulatória emitiu licença para a adaptação. Nenhuma dotação orçamentária foi aprovada em três leituras e devolvida ao plenário para reapreciação. A natureza, diferentemente das instituições humanas, não tem a opção de ser idiota.

O que torna a iguana marinha fascinante não é exatamente a raridade, embora seja o único lagarto verdadeiramente marinho do planeta. O que fascina é a elegância da solução. O organismo identificou um recurso abundante, o oceano com suas algas, desenvolveu ao longo de gerações a capacidade de acessá-lo, e construiu internamente o mecanismo de compensação para os custos dessa escolha. Sal em excesso mata. Então o corpo criou uma válvula. Simples. Sem intermediários. Sem o sujeito que fica entre o problema e a solução cobrando uma taxa de conveniência chamada imposto, regulação ou concessão pública. A glândula nasal da iguana é, em termos práticos, mais eficiente do que qualquer secretaria que o homem já criou para lidar com qualquer coisa.

Há uma lição filosófica antiga, tão antiga que já virou clichê justamente porque as pessoas repetem sem entender: a forma segue a função. Quando um sistema, seja ele biológico, econômico ou político, tem que responder a realidades concretas para sobreviver, ele tende a se tornar competente. A iguana que não consegue mergulhar morre de fome. A empresa que não atende ao cliente fecha. O Estado que não serve à população... ganha mais orçamento, cria uma subsecretaria de monitoramento de desempenho e contrata uma consultoria para avaliar os indicadores de entrega. Perceba a diferença de incentivo. É ela que explica tudo.

Galápagos virou sinônimo de evolução porque Darwin passou por lá e teve a decência intelectual de registrar o que viu sem distorcer para caber em teoria prévia. Mas o que raramente se menciona é que as ilhas são um laboratório de isolamento. Os animais lá evoluíram para resolver os problemas específicos daquele ambiente, sem importar soluções prontas, sem depender de transferências de tecnologia de continentes mais "desenvolvidos". A iguana marinha não copiou nada de ninguém. Inventou a própria náutica reptiliana do zero, por pressão de necessidade, ao longo de milênios. O isolamento que parece maldição virou vantagem competitiva. Existe até um nome para esse fenômeno nas ciências econômicas, mas o conceito dispensa o rótulo: quando você não pode se apoiar em muleta alheia, aprende a andar.

O paradoxo contemporâneo é que as sociedades que mais se orgulham de "proteger a natureza" são precisamente as que mais destruíram o mecanismo natural de seleção em suas próprias instituições. Protegem o lagarto que espirra sal, mas promovem o político que acumula sal sem nenhuma válvula de compensação, sem nenhum predador institucional capaz de acabar com a espécie. A iguana marinha só existe porque Galápagos não tem estrutura para sustentá-la artificialmente: ela precisou ser boa no que faz ou sumia do mapa geológico. Quando se cria um ambiente onde a incompetência é financiada, onde o fracasso é recompensado com mais recursos públicos e onde a sobrevivência independe da função desempenhada, não se está protegendo ninguém. Está-se criando, sistematicamente, a única espécie mais inútil do que um réptil de água doce tentando cruzar o Pacífico: o burocrata permanente em cargo de confiança, especialista em nada, inamovível por tudo.

A iguana de Galápagos não pede atenção. Ela chama atenção porque resolve, com elegância perturbadora, um problema que ninguém mais resolveu. Esse é o único tipo de fama que vale alguma coisa. O resto é assessoria de imprensa.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.