Há uma matéria circulando por aí, daquelas bem intencionadas, ensinando o sujeito a distinguir a pegada da capivara da marca da anta, o sulco da cobra do risco do tatu. Conhecimento útil, claro, sobretudo para quem mora perto de mata, plantação ou riacho. O caboclo do interior, esse, já sabia de tudo antes de qualquer biólogo escrever cartilha. Aprendeu na vida, com o pai, com o avô, com a necessidade de não pisar onde a jararaca dormiu. É a sabedoria que brota onde o Estado nunca chegou e, justamente por isso, funciona.

Acontece que o brasileiro virou expert em ler rastro de bicho e analfabeto em ler rastro de gente. Sabe identificar a passada da onça, mas não percebe o vinco que o imposto deixa no contracheque. Reconhece a marca do quati no canteiro, e não enxerga o sulco profundo que a inflação cavou no preço do arroz nos últimos cinco anos. É treinado, desde criança, a temer o predador da mata e a reverenciar o predador de gravata. Esse, sim, anda em manada, deixa pegada em cada folha de pagamento e nunca foi catalogado por cartilha alguma do Ministério do Meio Ambiente.

Toda pegada conta uma história, e a história é sempre a mesma: alguém passou por ali e levou alguma coisa. O capivara come a mandioca, o tatu fuça a horta, a raposa visita o galinheiro. Pequenos prejuízos, danos contornáveis, criatura cumprindo seu papel na cadeia. Agora compare com o rastro deixado por quem cobra para proteger e não protege, regula para zelar e quebra, taxa para distribuir e concentra. A onça mata para comer. Esse outro bicho mata para distribuir cargo, comprar voto e financiar amigo. A diferença, qualquer criança da roça percebe.

Repare na simetria do absurdo. Ensinam o cidadão a identificar perigo onde o perigo é mínimo, justamente para que ele não treine o olhar para o lugar onde o perigo é máximo. Falam de cobra no quintal enquanto o boleto chega cheio de tributo embutido, taxa de iluminação que não ilumina, contribuição que ninguém pediu, multa por descumprir norma que ninguém leu. O verdadeiro animal silvestre brasileiro vive em prédio com ar condicionado, anda escoltado e tem mandato. E, ao contrário da capivara, esse não some quando o sol nasce.

A lógica é elementar e dói por isso mesmo. Se um vizinho entrasse na sua casa todo mês e levasse trinta por cento do que está dentro da geladeira, alegando que vai redistribuir aos necessitados, qualquer um chamaria a polícia. Se ele, depois de pegar, ainda cobrasse uma taxa pelo serviço de carregar a geladeira, o caso viraria piada. Pois é exatamente isso que acontece, mas com nome bonito, sigla complicada e sustentação acadêmica. O rastro está lá, claríssimo no holerite, no extrato, no preço do combustível, no aluguel. Falta apenas alguém ensinar a olhar.

Então, da próxima vez que vir uma marca esquisita no barro do quintal, agradeça. É um animal honesto, que come, bebe e segue seu caminho sem alegar que está fazendo isso pelo bem coletivo. Os outros rastros, esses que entram pela tomada, pela bomba de gasolina, pela conta de luz e pela folha de pagamento, esses pedem outro tipo de cartilha. Uma que ninguém vai escrever para você de graça, porque interessa, e muito, que você continue achando que o problema é a cobra no canteiro.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.