Encontrar uma joaninha pousada numa folha de roseira é a confissão silenciosa de que o jardim está saudável, e essa confissão diz mais sobre ordem espontânea do que qualquer cartilha de extensão rural distribuída a peso de imposto. O inseto não chegou ali por decreto, não preencheu formulário, não esperou edital. Veio porque havia pulgão, cochonilha, ácaro, ou seja, comida. E onde há comida, há quem coma, sem necessidade de subsecretaria de fomento à entomologia aplicada.
Uma única joaninha adulta devora algo perto de cinquenta pulgões por dia, e a larva, aquela coisinha preta com manchas alaranjadas que o jardineiro distraído esmaga achando que é praga, come ainda mais. Façamos a conta simples que ninguém faz: se um casal de joaninhas resolve o que três pulverizações de inseticida sistêmico resolveriam pela metade, com gasto zero, sem resíduo, sem matar abelha, sem contaminar o lençol freático, qual a justificativa econômica do veneno? A resposta é constrangedora. A justificativa não é agronômica, é comercial. Alguém precisa vender o frasco, e alguém precisa fiscalizar a venda do frasco, e alguém precisa cobrar imposto sobre a fiscalização da venda do frasco. A joaninha atrapalha essa cadeia inteira, e por isso ninguém faz campanha por ela.
O jardim funciona por uma lógica que os planejadores detestam, porque ela dispensa o planejador. Plante coentro florido, endro, mil folhas, cosmos, calêndula, e os predadores naturais aparecem sozinhos, atraídos pelo néctar das umbelíferas. Deixe um canto com mato, aquele canto que a estética suburbana condena, e você terá abrigo para a fauna útil no inverno. Evite o veneno de amplo espectro, que mata tanto o pulgão quanto quem come o pulgão, e em duas estações o equilíbrio se restabelece. É um arranjo antigo, mais antigo que qualquer ministério da agricultura, e funciona pela razão evidente de que cada parte ganha cuidando do próprio interesse, sem precisar reunião de alinhamento.
Há aqui uma lição que extrapola a horta e incomoda quem vive de gerenciar o que se gerencia sozinho. Sempre que uma solução barata, descentralizada e eficiente aparece, surge imediatamente um arranjo institucional para encarecê la, centralizá la e torná la ineficiente, vendido como modernização, sustentabilidade ou inovação tecnológica. O agricultor de duzentos anos atrás sabia identificar predador natural; o de hoje precisa de consultor certificado, drone com inteligência artificial e selo verde para fazer o que a vovó fazia plantando manjericão entre os pés de tomate. Curioso como o progresso, em certos setores, consiste em desaprender o óbvio e pagar caro para alguém reensiná lo.
Por isso, ver a joaninha vermelha de sete pintas pousar na nervura de uma folha tem algo de pequeno manifesto. É a prova viva de que o mundo se organiza melhor quando se permite que ele se organize, de que predador e presa, oferta e procura, ação e consequência ajustam se em silêncio quando ninguém tenta consertar o que não está quebrado. Quem paga o veneno é o consumidor, quem recebe é o fabricante, quem regula é o burocrata, e quem perde é o solo. Já a joaninha, essa não cobra, não fatura, não emite nota. Trabalha de graça e some quando o serviço acaba. Talvez seja por isso que ninguém a homenageia em discurso de posse.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.