A notícia chega da forma mais honesta possível: alguém inventou um abridor de garrafas que, ao destampar a cerveja, lança a tampinha numa espécie de jogo de queda, transformando o gesto mais cotidiano do churrasco brasileiro num momento de disputa, de gargalhada, de aposta entre amigos. Sem edital, sem fundo federal de inovação, sem lei de incentivo, sem comissão parlamentar de fomento ao entretenimento popular. Alguém viu um problema, enxergou uma graça possível nele, fabricou um objeto e colocou à venda. O mercado, em toda a sua brutalidade silenciosa e eficiente, funcionou.
Considere o contraste. De um lado, bilhões despejados anualmente em "políticas de lazer", "programas de inclusão cultural", secretarias municipais de cultura com organigramas que fariam corar um faraó, festivais patrocinados com dinheiro que passou pela máquina trituradora do fisco antes de chegar às mãos do produtor cultural de Ipanema. Do outro lado: um abridor. Uma mola, talvez. Um trilho inclinado. Uma tampinha que voa e cai. E as pessoas rindo. Genuinamente rindo, sem mediação de subsídio, sem cadastro no CadÚnico, sem palestra de conscientização sobre a importância do riso inclusivo. A espontaneidade como categoria política é algo que o planejador estatal simplesmente não compreende, porque a espontaneidade, por definição, escapa ao plano.
Existe uma virtude antiga, quase esquecida, na reunião de pessoas em torno de um braseiro, com carne assando e cerveja gelada na mão. Não é nostalgia sentimental, é antropologia básica: o fogo sempre reuniu os homens, a refeição compartilhada sempre foi o tecido conjuntivo da comunidade real, aquela que não precisa de manifesto nem de hashtag para existir. O churrasco é uma instituição anterior ao Estado brasileiro, anterior à Constituição de 1988, anterior a qualquer das suas oitenta emendas. Sobreviveu à ditadura, sobreviveu à inflação de quatro dígitos, sobreviveu ao Plano Cruzado, sobreviveu a tudo, porque responde a uma necessidade que não é fabricada por agência de publicidade nem por partido político: a necessidade humana de estar junto, de comer junto, de rir junto.
E nesse contexto, a tampinha que voa assume uma dignidade filosófica que os jornais sérios jamais reconheceriam, porque os jornais sérios estão ocupados demais explicando por que o PIB cresceu 0,3% e por que isso é, na verdade, uma vitória do governo. A tampinha voa, alguém aposta onde vai cair, outro perde, ri da própria derrota, terceiro pede mais uma rodada. Não há transferência compulsória de renda nessa transação. Não há burocracia. Não há formulário. Há apenas a troca voluntária de alegria entre pessoas que escolheram estar ali, no mesmo quintal, sob o mesmo céu de sábado à tarde. É a única forma de igualdade que não precisa de coerção para funcionar: a igualdade da gargalhada compartilhada.
O Estado, naturalmente, chegará. Talvez já esteja chegando. Haverá em algum município progressista um vereador preocupado com o descarte irregular de tampinhas metálicas, uma resolução da Anvisa sobre o ângulo seguro de lançamento de objetos em ambiente doméstico, uma campanha do Ministério da Saúde alertando que jogos de bebida incentivam o consumo irresponsável de álcool, um imposto específico sobre abridores com mecanismo lúdico incorporado. É a teleologia natural do Leviatã: tudo que é espontâneo o irrita, tudo que é alegre o suspeita, tudo que é voluntário ele quer tornar compulsório ou proibido. A liberdade, para o burocrata, é sempre um problema a ser administrado.
Por ora, porém, a tampinha ainda voa. O churrasco ainda reúne. O abridor funciona. Alguém ganhou dinheiro fazendo isso, o comprador ganhou alegria comprando, os amigos ao redor ganharam uma noite melhor do que teriam tido sem o objeto. Todos saíram ganhando, ninguém foi obrigado a nada, nenhum recurso público foi desperdiçado. Há mais sabedoria política nessa corrente de trocas voluntárias do que em vinte anos de conferências nacionais de participação popular. Guarde essa tampinha. Um dia vai servir de prova.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.