O Antagonista noticiou, com a frieza que o assunto merece, o avanço dos programas de modernização militar que transformam o soldado numa espécie de nó inteligente dentro de uma rede de comando em tempo real , sensores biométricos, geolocalização contínua, interfaces neurais em desenvolvimento, armamento integrado ao sistema nervoso do operador. A narrativa oficial é de eficiência, superioridade tática, proteção ao combatente. E é exatamente aqui que Aristóteles pede a palavra, porque o Filósofo nos ensinou, há vinte e quatro séculos, que a primeira pergunta diante de qualquer arranjo político não é "funciona?" , é "a serviço de quem?" Toda técnica pressupõe um telos, uma finalidade que não está na técnica em si, mas no agente que a dirige. O soldado equipado como plataforma tecnológica não é mais sujeito de sua própria ação de combate: é objeto de gestão do Estado que o monitora, processa seus dados e toma decisões sobre ele em tempo real. Isso tem um nome clássico. Chama-se servidão.
Rothbard nos daria agora o complemento necessário: o Estado, por definição, é o único agente social que financia sua expansão com dinheiro tomado à força de quem produz. Quando esse mesmo Estado investe bilhões no desenvolvimento de tecnologia de monitoramento corporal de seus próprios agentes, ele não está apenas comprando capacidade bélica , está desenvolvendo infraestrutura de controle com dinheiro que não é seu, para fins que raramente coincidem com os declarados. A história do armamento estatal é, sem exceção, a história da tecnologia que começa nos inimigos externos e termina nos cidadãos internos. O gás lacrimogêneo foi desenvolvido para a guerra química e estreou nos protestos urbanos. O drone militar de reconhecimento é hoje o olho das polícias metropolitanas. A vigilância em massa construída para detectar terroristas foi usada, como revelou Snowden com farta documentação, para espionar aliados, jornalistas e opositores políticos. Bastiat chamaria isso de la loi invertida: o instrumento criado para proteger o direito, convertido em máquina de violá-lo.
A contradição central do programa do "soldado do futuro" , e é uma contradição que seus entusiastas nunca encaram de frente , é que ele pressupõe a eliminação da autonomia do combatente como virtude tática. Um soldado integrado numa rede de comando em tempo real, com cada decisão sua monitorada e potencialmente sobreposta pelo centro, não é um guerreiro: é um periférico humano. São Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, estabelecia que a prudência , a phronesis , é a virtude intelectual que governa a ação prática; ela exige um agente que delibera, julga e decide com base na situação concreta diante de si. Quando você retira do homem no campo a capacidade de deliberação autônoma e a substitui por um protocolo de rede gerenciado a quilômetros de distância, não obteve um soldado mais eficiente: obteve um robô de carne que vai falhar exatamente quando a rede falhar, quando o sinal cair, quando o inimigo aprender a hackear o sistema. E sistemas, todo engenheiro honesto sabe, sempre são hackeados.
Mas o ponto mais sombrio não é a falibilidade técnica , é o vetor político. Toda ditadura do século XX começou com um Estado que argumentou precisar de poderes excepcionais de monitoramento e controle sobre seus próprios funcionários em situações de emergência. Voegelin demonstrou com rigor que o totalitarismo não é um acidente histórico, mas a consequência lógica de um projeto gnóstico de transformação do mundo pela engenharia social. O soldado-plataforma não é apenas um programa de defesa: é o protótipo antropológico do cidadão ideal do Estado total , um ser cujos dados biométricos, localização e parâmetros comportamentais estão permanentemente disponíveis para o soberano. Dostoiévski, pelo Grande Inquisidor, antecipou com precisão perturbadora a sedução desse arranjo: os homens, cansados do peso da liberdade, entregarão de bom grado a autonomia em troca de segurança, pão e a sensação de pertencer a algo maior. O uniforme, nesse caso, não é metáfora , é literal.
A pergunta que nenhum general, nenhum secretário de defesa e nenhum jornalista embedded jamais fará em público é a seguinte: quando essa tecnologia estiver madura, quando os custos caírem, quando a miniaturização permitir que o mesmo sistema de monitoramento biométrico contínuo caiba num dispositivo civil comum , quem impedirá o Estado de propor sua adoção voluntária para a população em geral, com os argumentos de sempre? Saúde pública, segurança urbana, prevenção de crimes. Tocqueville avisou que o despotismo democrático não virá com botas e algemas, mas com formulários e serviços , suave, paternal, atencioso, onipresente. O soldado de hoje carrega no pulso o sensor que o cidadão de amanhã usará na orelha, achando que é moda. Burke diria que uma civilização que não aprende com seus próprios precedentes merece repetir seus piores capítulos, e Chesterton acrescentaria, com o humor que a situação não comporta, que o problema das pessoas que não acreditam em nada não é que acreditam em nada , é que acreditam em qualquer coisa, especialmente se vier com um manual técnico e financiamento federal.
O soldado do futuro já está sendo montado nos laboratórios de defesa das principais potências, e o Brasil, como de costume, vai importar a tecnologia décadas depois de importar a ideologia que a justifica. Não há escândalo na eficiência militar em si , há escândalo na recusa sistemática de fazer a pergunta óbvia sobre poder, controle e reversibilidade. Um Estado que monitora seus soldados em tempo real é um Estado que já resolveu, em princípio, que o monitoramento em tempo real de pessoas é uma prerrogativa legítima do poder. O resto é apenas escala e tempo. E escala e tempo, na história política, nunca jogaram a favor da liberdade.