Chegou ao mercado o GWM WEY 07, utilitário esportivo do tamanho de um pequeno apartamento, com seis lugares, tração integral, 517 cavalos de potência combinada e a promessa de rodar até 128 quilômetros só na bateria. O preço sugerido flerta com a casa dos quatrocentos mil reais e a peça publicitária vende refinamento, tecnologia e a sensação reconfortante de estar fazendo algo nobre pelo planeta enquanto se desliza pela marginal. Tudo lindo, tudo impecável, tudo cuidadosamente embrulhado em papel de presente verde. Só que automóvel de luxo importado não nasce em pé de mangueira, e fábrica chinesa não atravessa o Pacífico por amor ao consumidor tupiniquim.

Cabe a pergunta incômoda, aquela que nenhum suplemento automotivo faz porque vive de anúncio de montadora: por que justamente agora o mercado brasileiro virou vitrine privilegiada de marcas que cinco anos atrás ninguém sabia pronunciar? A resposta está em decreto, em alíquota costurada à medida, em incentivo fiscal para veículo eletrificado, em isenção de IPI calibrada para favorecer exatamente este perfil de produto. O governo decide que híbrido plug-in é virtuoso, carimba o desconto tributário, e de repente o que era inviável vira oferta imperdível. O carro não ficou mais barato, o que aconteceu foi que parte do preço foi transferida para quem nunca vai sentar no banco de couro perfurado.

O esquema é antigo, mudou só o figurino. Antigamente subsidiava-se a indústria nacional em nome do emprego do trabalhador brasileiro, hoje subsidia-se o importado em nome do clima, da transição energética, da modernidade. O argumento moral troca de fantasia conforme a estação, mas o mecanismo é idêntico: alguém decide do alto qual setor merece tratamento privilegiado, retira recursos do bolso comum via tributo ou via renúncia fiscal, que dá no mesmo, e redireciona o fluxo para quem soube melhor sussurrar nos ouvidos certos em Brasília. A frota de táxi de Moscou nos anos setenta também era escolhida a dedo pelo planejador central, com a diferença de que pelo menos lá não fingiam que era escolha do mercado.

E há o detalhe geopolítico que a coluna automotiva educada finge não enxergar. A montadora em questão não é exatamente uma startup de garagem comandada por sonhadores libertários do interior de Hunan. Por trás de cada gigante chinesa de veículos elétricos há crédito subsidiado pelo Estado, terreno cedido por prefeitura do partido, energia abaixo do custo, matéria-prima garantida por estatal de mineração. O carro que chega aqui já vem com camadas de subsídio empilhadas desde a extração do lítio, e o consumidor brasileiro, sentado no semáforo, acredita piamente que pagou um preço justo definido por oferta e procura. Não pagou. Pagou um preço político, definido por dois governos, o de lá que produz com perda contábil estratégica e o de cá que renuncia à arrecadação para parecer moderno.

O resultado prático é uma classe média alta brasileira andando em carro de luxo com desconto do contribuinte, uma montadora estrangeira ocupando o espaço que durante décadas se exigiu reserva de mercado para proteger, e um discurso ambiental que serve de batom no porco para que ninguém faça a conta de quanto custou. Quem paga o samba, como sempre, é o sujeito que pega o ônibus às cinco da manhã e nunca vai sentar nos seis lugares ventilados do utilitário esportivo. Ele financia, via imposto embutido em tudo o que consome, o conforto do vizinho do andar de cima e o lucro do acionista do outro lado do mundo. Chamam isso de política industrial verde. O nome antigo, mais honesto, era pilhagem com cerimônia.

Resta o silogismo desconfortável. Se subsídio é transferência forçada de renda de muitos para poucos, e se a isenção tributária para o veículo eletrificado de luxo concentra benefício numa faixa específica de consumidores enquanto o custo se dilui em toda a população, então estamos diante de uma transferência forçada de renda dos pobres para os ricos, executada com aplauso da imprensa especializada. Pode chamar de modernização, de transição, de futuro. O cheiro continua o mesmo de sempre, aquele cheiro inconfundível de favor governamental disfarçado de progresso. O rei desfila no SUV híbrido de seis lugares, e desta vez nem precisou tirar a roupa.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.