O presidente dos Estados Unidos passou a manhã de sábado postando um videozinho em sua rede social próprio na qual aparece encenando, com cara de menino que ganhou bazuca de Natal, a destruição de um míssil iraniano por um navio de guerra americano. "Ok, nós o temos na mira. Fogo. Boom." É o nível do discurso. Não é declaração de guerra, não é comunicado oficial, não é nota diplomática redigida por adultos no Departamento de Estado. É um meme produzido pelo próprio chefe do executivo da maior potência militar do planeta, que trata a possibilidade real de matar gente como se fosse trailer de filme de ação dos anos oitenta.

Aqui começa a parte que a imprensa séria fingiu não ver. Toda vez que um presidente americano sobe o tom contra o Irã, três coisas acontecem antes do café da tarde: o petróleo sobe, as ações das fabricantes de armamento sobem, e os títulos do Tesouro encontram comprador nervoso. Quem está do outro lado dessa equação? O sujeito que abastece o carro no posto da esquina, o aposentado que vê o dólar comer sua poupança, o trabalhador que paga imposto para que o navio simulado no videozinho exista de verdade no Golfo Pérsico. A encenação é gratuita para quem encena. A conta é socializada para quem assiste.

Há algo de profundamente revelador no formato. Um chefe de Estado que precisaria, num mundo minimamente sério, justificar perante o Congresso qualquer movimentação bélica, descobriu que pode terceirizar a guerra para o departamento de marketing. Posta o vídeo, mede o engajamento, vê o que cola. Se a base aplaude, escala. Se recua a bolsa, recua o tom. A política externa virou teste A/B, e o teatro de operações virou literalmente teatro. O complexo industrial militar, aquele velho conhecido contra o qual até um general presidente já alertou em discurso de despedida, agradece a publicidade gratuita e prepara o próximo contrato.

Note a inversão lógica do espetáculo. Se o objetivo fosse dissuadir, a mensagem seria entregue pelos canais reservados, com a discrição que sempre acompanhou o poder real. Se o objetivo fosse informar a opinião pública, viria pronunciamento solene, com fundo institucional e linguagem mensurada. O que veio foi entretenimento. Logo, o objetivo não é nem dissuadir nem informar. O objetivo é vender. Vender pertencimento à plateia interna, vender medo à plateia externa, vender ações para a plateia de Wall Street. Três produtos diferentes no mesmo videozinho de quinze segundos.

E quanto ao Irã, esse inimigo perpetuamente útil que serve a presidentes democratas e republicanos desde mil novecentos e setenta e nove? Convém lembrar que o regime que hoje serve de saco de pancadas retórico foi parido, em larga medida, pela própria política externa americana que derrubou um governo eleito nos anos cinquenta para entregar o petróleo a uma corte de aliados convenientes. Quem semeou xá colheu aiatolá. Agora, quatro décadas depois, o herdeiro dessa tradição posta vídeo dizendo boom para uma plateia que não tem a menor ideia de como o problema chegou ali. É a fábrica de inimigos operando em ciclo fechado, e cada rodada de tensão alimenta o próximo orçamento militar, que alimenta a próxima tensão, que alimenta o próximo orçamento.

No fim das contas, a pergunta que importa nunca é a que o videozinho responde. A pergunta é: quem ganha dinheiro com o boom? As fabricantes de míssil que vão repor o estoque. As empreiteiras que vão refazer base militar. Os fundos que apostaram no petróleo. Os consultores de defesa que viram suas agendas lotarem na segunda-feira de manhã. E quem paga? O contribuinte americano que financia o teatro, o motorista brasileiro que paga gasolina mais cara por causa do prêmio de risco, o iraniano comum que não pediu para nascer sob aquele regime e muito menos para servir de alvo em videogame presidencial. O rei está nu, fantasiado de almirante, postando memes. E o súdito aplaude porque foi treinado para confundir bravata com liderança.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.