Houve disparos nas imediações de um jantar entre o presidente americano e jornalistas, e o Serviço Secreto fez o que faz: blindou, evacuou, conteve. Até aí, fato bruto, sem adorno. O que veio depois é que merece o bisturi: o antecessor democrata correu ao microfone para agradecer aos agentes e declarar, com aquela voz pastoral de quem passou anos nos cinemas de Hollywood ensaiando empatia, que não há espaço para violência na democracia. Frase bonita. Quase tão bonita quanto os relatórios do Bureau of Investigative Journalism contando os casamentos vaporizados por drones Reaper entre 2009 e 2017.
Aqui mora o truque retórico que o cidadão precisa aprender a farejar de longe. Quando o homem que assinou a Terça da Morte, aquele dia da semana em que se escolhia, sobre uma mesa de mogno na Casa Branca, qual paquistanês ou somali iria virar pó, vem condenar violência política, ele não está fazendo filosofia moral. Está fazendo gestão de marca. A violência que importa, no léxico da casta, é sempre a que ameaça o arranjo. A que sustenta o arranjo, essa é política externa, operação cirúrgica, ato de defesa. O verbo muda, o cadáver continua o mesmo.
Repare na coreografia: o atual ocupante da cadeira recebe jornalistas, alguém atira nas redondezas, e o protocolo midiático exige que o coro dos ex desça do Olimpo para entoar o salmo da unidade nacional. É o mesmo ritual de sempre, encenado desde os tempos em que senadores romanos fingiam horror diante das punhaladas que eles próprios tinham orçado na noite anterior. A diferença é que hoje a toga virou terno italiano e o punhal virou comunicado oficial. A função permanece intacta: legitimar o monopólio da força nas mãos de quem já a detém, fingindo que a violência é uma anomalia externa, e não a matéria-prima do ofício.
Siga a trilha. Quem ganha com o repúdio bem-comportado? Ganha o ex, que reabilita a imagem de estadista numa hora em que a base do partido o vê como peça de museu. Ganha o atual, que recebe um afago bipartidário e converte susto em capital político. Ganha a imprensa, que vende a narrativa redentora de uma democracia que se uniu contra o ódio, e de quebra fatura assinatura digital. Quem paga? O contribuinte, sempre. Paga o Serviço Secreto inflado, paga a infraestrutura de vigilância que cresce a cada incidente, paga os pacotes de segurança democrática que sairão dos próximos orçamentos suplementares. Toda comoção pública, no balcão de Washington, vira linha de despesa.
O silogismo é brutal de tão simples. Premissa maior: violência política é repudiada por quem não a pratica. Premissa menor: o sujeito em questão presidiu a maior campanha de execuções extrajudiciais por controle remoto da história americana. Conclusão: ou ele não sabe o que está dizendo, ou sabe perfeitamente, e o discurso é apenas figurino. Fique com a segunda hipótese, que é a que economiza ingenuidade. O político se julga pelo que faz na sombra do orçamento, não pelo que declara diante das câmeras. As coisas são o que são, ainda que o teleprompter diga o contrário.
O cidadão que ainda se comove com esses comunicados oficiais precisa entender uma coisa elementar: o Estado não condena a violência, ele a regula. Decide quem pode atirar, quando, em quem, e com qual papel timbrado. Quando alguém de fora do clube saca uma arma perto de um jantar de Estado, o sistema entra em pânico não pela vida humana, abstração que sempre coube no orçamento, mas porque o monopólio foi fissurado. É o pedreiro mexendo nas ferramentas do mestre de obras. Daí o tom solene, o agradecimento ao Serviço Secreto, o sermão sobre democracia. Não é luto. É manutenção do contrato. E o contrato, leitor, foi escrito sem você ter sido consultado, mas é você quem paga a mensalidade.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.