"Pode começar em 2026." Leia essa frase de novo, devagar, saboreando cada palavra. Não "vai começar", não "está contratado para começar", não "já tem licitação publicada para começar". Pode. O verbo modal mais honesto da língua portuguesa, aquele que os políticos usam quando querem soar decisivos sem assumir absolutamente nenhum compromisso. É o mesmo "pode" que aparece em toda obra pública brasileira desde que Getúlio usava paletó, e que invariavelmente precede anos de atraso, revisões contratuais e aditamentos que transformam o orçamento original em anedota.

O túnel Santos-Guarujá é uma dessas obras que a engenharia política brasileira cultiva com carinho especial: grande o suficiente para gerar manchetes, caro o suficiente para remunerar bem os parceiros certos, e complexo o suficiente para justificar qualquer prazo, qualquer custo, qualquer explicação. Quarenta e oito meses de execução, segundo o vice-presidente. Isso é quatro anos. Quatro anos de contratos, subcontratos, aditamentos, medições mensais, auditorias que não auditam e fiscalizações que não fiscalizam. Na República Velha chamavam isso de "obras de enriquecimento". Hoje chamamos de "investimento em infraestrutura". A embrulhagem melhorou, o conteúdo é o mesmo.

Siga a trilha com atenção porque ela é instrutiva. Toda obra de infraestrutura portuária dessa escala passa por um filtro específico: as grandes empreiteiras que historicamente dominam os contratos federais, as mesmas que financiavam campanhas quando isso era legal e que hoje encontram outros mecanismos igualmente eficazes de agradecer ao poder público pela generosidade. O dinheiro que sai do bolso do contribuinte, passa pelo Tesouro, ganha o nome técnico de "concessão" ou "parceria público-privada" ou "programa de aceleração do crescimento", e reaparece como lucro em balanços corporativos que nenhum passageiro da balsa Santos-Guarujá jamais verá. Essa é a mágica. A obra é pública no custo e privada no lucro. O risco é socializado, o retorno é privatizado. Funciona assim desde que o homem inventou o erário.

E a população da Baixada Santista? Essa recebe a promessa, que é de graça, e poderá pagar a tarifa, que não será. A balsa que hoje atravessa o canal, operada com toda a ineficiência que o monopólio estatal garante, será substituída por um túnel que, se seguir o padrão das concessões brasileiras, chegará ao usuário final com pedágio calibrado para remunerar o investimento privado e ainda deixar uma gorjeta política. O trabalhador que hoje paga para cruzar de barco pagará mais para cruzar por baixo d'água. Isso é o que o governo chama de modernização. O nome técnico correto é trocar um extrator por outro.

O detalhe mais revelador de toda a história está no prazo: 2030. O atual governo federal termina em janeiro de 2027. Isso significa que a obra, caso comece em 2026 como prometido, será concluída no mandato seguinte, por outro presidente, com outra equipe, sob outra responsabilidade política. Alckmin anuncia, o próximo governo entrega, e nenhum dos dois pode ser responsabilizado pelo que der errado no meio do caminho. É a divisão perfeita da irresponsabilidade. O arquiteto não mora na casa que projeta, o médico não toma o remédio que receita, e o político não paga a obra que inaugura. A conta sempre sobra para quem não estava na foto.

Ao final, a pergunta que o jornalismo de serviço jamais faz e que qualquer cidadão deveria tatuar na testa antes de ler qualquer anúncio governamental: quem vai ganhar dinheiro com isso? Não com o túnel pronto, não com o benefício difuso e abstrato para "a economia da região". Com o processo. Com o projeto executivo, com a licitação, com o contrato, com cada parcela mensal de medição de obra, com os aditamentos que virão, com a supervisão, com a consultoria, com a auditoria. Esse mapa existe. Tem CNPJ, tem CPF, tem endereço registrado na Receita Federal. Só não tem câmera apontada para ele.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.