O endereço é nobre, o prédio é alto, o mármore é importado e os sócios são exatamente quem o leitor desconfia. Seis empreendimentos imobiliários espalhados pelos bairros mais valorizados de São Paulo carregam, no rodapé do contrato social, a assinatura conjunta da Novonor, antigo nome de guerra Odebrecht, e de fundos atribuídos a Daniel Vorcaro, o banqueiro que pilotou o Banco Master até a hora em que a banda parou de tocar. Trocaram a placa da fachada, mantiveram o caixa. Mudaram o logotipo, conservaram o método. Quem foi flagrado mantendo planilha de propina batizada com nome de departamento de marketing agora vende apartamento de quatro suítes para a classe média alta paulistana, e ninguém estranha. A República tem memória de peixe e olfato de resfriado.
A operação é elegante na sua brutalidade. De um lado, uma empreiteira que confessou, em delação premiada, ter corrompido governos inteiros, três continentes, dezenas de presidentes, ministros e parlamentares. Do outro, um banqueiro cujo modelo de negócio foi vender CDB com retorno irresistível para captar dinheiro de poupador desavisado e empregar essa montanha em ativos podres, precificados pelo próprio devedor, num truque contábil que faria corar qualquer cambista de feira. Esses dois, juntos, agora levantam torres em Pinheiros, Vila Olímpia, Itaim. Quem paga o concreto? O comprador final, o financiamento bancário, o fundo imobiliário do trabalhador que acha estar diversificando aposentadoria. Quem recebe o lucro? Os mesmos nomes que já receberam do contribuinte por décadas, primeiro via licitação fraudada, depois via socorro bancário, agora via metro quadrado.
Aqui mora a lógica implacável que a imprensa palaciana se recusa a fazer. Se a empresa A confessou ter saqueado o Estado, e a empresa A continua existindo, apenas com nome novo, então o saque continua existindo, apenas com nome novo. Se o banqueiro B quebrou um banco usando manobras que qualquer estudante de contabilidade do segundo período identificaria como fraude, e o banqueiro B segue operando, capitalizado, comprando torres residenciais, então alguém, em algum andar de Brasília, decidiu que ele segue operando. Não foi acidente, não foi milagre, não foi mérito. Foi decisão. E toda decisão tem nome, sobrenome, cargo e CPF. O brasileiro foi educado a chamar isso de mercado. O nome correto é cartório de privilégios.
Não custa lembrar como funciona o ciclo. A empreiteira corrompe o governo para ganhar a obra pública superfaturada. Com o lucro da obra, capitaliza fundos imobiliários privados. O banqueiro amigo capta dinheiro do pequeno poupador prometendo rendimento de fantasia. Esse dinheiro entra como sócio nos empreendimentos. Quando o banco quebra, o Fundo Garantidor cobre o poupador até certo teto, usando dinheiro do sistema bancário inteiro, que repassa o custo no spread, que pesa em quem toma crédito, que é o brasileiro médio. O lucro fica privatizado nas torres de mármore, o prejuízo é socializado nas prateleiras vazias do supermercado. É o velho moinho moendo o mesmo trigo, só que o pão sai cada vez menor para quem plantou.
O detalhe saboroso, quase cômico, é o ritual de relações públicas. A Odebrecht virou Novonor como o lobo de Esopo virou cordeiro: trocou a pele, preservou o apetite. O Banco Master vendia segurança de fundo soberano com o risco de cassino clandestino. Os fundos do banqueiro hoje aparecem em escritura de luxo enquanto credores pequenos do banco fazem fila no Judiciário. E no entanto a imprensa séria, aquela que vive de assinatura institucional e verba publicitária estatal, descreve o conjunto como reorganização societária, sinergia patrimonial, vocação imobiliária. É a velha técnica de chamar o roubo de imposto, o confisco de regulação, e o calote de reestruturação. Quem domina o dicionário domina o crime.
Resta a pergunta de sempre, a única que importa, a que devia abrir e fechar qualquer noticiário brasileiro antes que dessem o tempo. Quem paga e quem recebe? Paga o comprador do apartamento que financia em trinta anos uma estrutura erguida com sobra de propina. Paga o cotista do fundo imobiliário que entrou achando que comprava tijolo e comprou histórico criminal. Paga o cliente do banco quebrado que vai descobrir, na lentidão da Justiça, que a garantia era promessa de campanha. Recebe a mesma casta de sempre, agora com nome novo no portão, mármore novo no hall e o mesmo cheiro velho de dinheiro alheio. O rei continua nu. Só trocaram a coroa por capacete de obra.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.