Sábado, dezenove e meia da noite, e a televisão resolve nos ensinar que sentar de pernas cruzadas e respirar pelo nariz é bom para a saúde. A notícia, em si, tem a profundidade de um pires: uma dermatologista famosa apresenta um programa semanal em que, desta vez, descobre o yoga. Parabéns ao canal, parabéns à apresentadora, parabéns ao espectador que, depois de cinco milênios de tradição védica, finalmente recebeu o aval de uma autoridade de branco para esticar a coluna na sala de casa sem se sentir um excêntrico.

Há algo de profundamente cômico no ritual moderno de precisar que um médico, um nutricionista ou um apresentador de TV nos autorize a fazer aquilo que monges, camponeses e avós faziam sem pedir licença a ninguém. O homem antigo caminhava, jejuava, meditava, dormia quando o sol se punha, e vivia bem o bastante para nos deixar a Ilíada, as catedrais góticas e o cálculo diferencial. O homem contemporâneo precisa de um especialista para informá-lo de que beber água é saudável, que dormir oito horas restaura o corpo e que respirar com calma diminui a ansiedade. A escolaridade subiu, a sabedoria evaporou.

O detalhe que ninguém comenta é o arranjo por trás da descoberta. Yoga virou indústria bilionária no Ocidente, com tapetinhos importados, roupas técnicas de tecido reciclado, retiros em Bali pelo preço de um carro popular, certificações de instrutor que custam mais que um semestre de universidade pública. O que era prática gratuita, transmitida de mestre a discípulo embaixo de uma figueira, virou franquia, virou app de assinatura mensal, virou diploma. Quem paga? Você, evidentemente, com o salário já mordido pelo imposto. Quem recebe? A cadeia inteira de intermediários que se interpõem entre o sujeito e a própria respiração, vendendo de volta, com lucro, aquilo que sempre lhe pertenceu de graça.

E aí entra o papel da mídia de prestígio, sempre disposta a chancelar o consumo certo para o público certo. Não se trata de yoga, propriamente; trata se de pertencimento. O programa não vende uma prática, vende uma identidade: a do brasileiro de classe média informada, que assina revista, assiste televisão de qualidade aos sábados à noite, frequenta o estúdio do bairro nobre e posta a foto da posição da árvore com legenda em sânscrito. A saúde é o pretexto, o status é o produto. Como sempre foi, aliás, desde que o homem inventou a vaidade e descobriu que podia cobrar por ela.

Há uma ironia adicional, e é grossa. A mesma sociedade que aceita docilmente quarenta por cento da renda confiscada por um Estado que entrega saúde pública em frangalhos descobre, no sábado à noite, que talvez devesse cuidar do próprio corpo. Não é coincidência. Quanto pior o serviço público que você paga compulsoriamente, mais o mercado paralelo de bem estar prospera vendendo, a preço de ouro, o que deveria ser trivial. O cidadão custeia duas vezes: uma para o aparato estatal que o adoece, outra para o circuito privado que finge curá lo com mantras. E ainda agradece, porque a televisão disse que faz bem.

No fundo, a lição é antiga e atravessa séculos sem precisar de apresentador. Cuidar de si é responsabilidade intransferível, não terceirizável a especialistas, ministros ou celebridades de jaleco. Yoga é ótimo, alongamento é ótimo, respiração consciente é ótima, e nada disso depende de programa de televisão, de credencial profissional ou de licença burocrática. Depende de você, do chão da sua casa e de quinze minutos que ninguém pode confiscar. O resto é mercado, e mercado bem montado vive de convencer o freguês de que ele não sabe amarrar o próprio sapato sem consultoria.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.