Sábado, 19h30, horário nobre do tédio doméstico brasileiro, e lá está mais uma edição do programa sobre saúde ancorado por uma dermatologista de reputação impecável. Tudo muito bem produzido, luz chapada, cenário asséptico, o ar de consultório sofisticado que tranquiliza o telespectador de classe média sentado no sofá depois do jantar. O fato concreto é esse, banal, repetido semana após semana, e exatamente por ser banal merece a dissecação. Porque a televisão não é neutra, nunca foi, e um programa sobre saúde apresentado por um profissional da área é uma das construções retóricas mais bem azeitadas da mídia contemporânea. Jaleco confere autoridade, câmera confere alcance, e a soma dos dois vende aquilo que o mercado precisa vender naquele trimestre.
Faça o exercício elementar, aquele que nenhum comunicado de imprensa quer que você faça. Quem paga pela produção? Quem são os anunciantes intervalados? Quais laboratórios, quais clínicas, quais redes de farmácia, quais fabricantes de cosméticos dermatológicos gravitam em torno do programa, direta ou indiretamente, via patrocínio, merchandising, ou pauta sutilmente alinhada com o lançamento da semana? A televisão é o negócio mais antigo da atenção capturada, e a atenção capturada dentro de um contexto de autoridade médica vale ouro. Nenhum anunciante é burro, nenhum broadcaster é filantropo, e quando a conta fecha é porque alguém está comprando alguma coisa de alguém, mesmo que o produto final pareça apenas informação desinteressada para o bem público.
Há um silogismo escondido ali que o telespectador raramente desmonta. Premissa maior, médicos são profissionais capacitados a falar de saúde. Premissa menor, aquele programa é apresentado por uma médica. Conclusão implícita e fraudulenta, tudo que sai dali é ciência pura. O problema é que a conclusão não segue das premissas, porque o veículo não é o consultório, é a emissora. O contrato não é médico e paciente, é produção e audiência. A lógica formal, quando aplicada sem preguiça, despe o figurino. A pessoa continua sendo uma excelente dermatologista em seu ofício. O programa, por outro lado, é um produto comercial que usa a credibilidade do ofício como moeda editorial. Coisas distintas, mesmo que a iluminação do estúdio tente fundir as duas.
O brasileiro tem uma relação patética com a figura do especialista na TV, herança de décadas de populismo sanitário em que governos usaram médicos e artistas para vender vacina, campanha, consenso e pânico conforme a estação política exigia. O jaleco, nesse país, virou uma espécie de cajado de xamã tropical, e quem o veste ganha licença para pronunciar verdades que em qualquer outra boca seriam checadas. Durante os episódios mais recentes da histeria sanitária coletiva, vimos até onde essa confiança cega consegue ir, e o preço que milhões pagaram por terceirizar o próprio juízo a quem aparecia na tela com uma credencial e um microfone. Repetir a fórmula em horário de sabatino, mesmo com pauta inofensiva sobre rugas e protetor solar, é continuar adestrando o hábito. O hábito é o capital mais precioso que qualquer indústria cultiva, e a indústria da saúde entendeu isso antes de quase todas as outras.
Nada disso é acusação à profissional que apresenta o programa, atenção, a armadilha aqui é outra. A crítica é estrutural. É ao arranjo em que o conhecimento técnico, que deveria existir dentro da relação voluntária e privada entre quem cuida e quem é cuidado, é esticado até virar entretenimento de massa patrocinado, e nesse esticamento perde quase tudo que o tornava valioso. Saúde não se trata em meia hora editada, não se discute em bloco com intervalo comercial, não se resolve no sofá com controle remoto na mão. Saúde é assunto individual, contratual, responsabilizável, pago por quem recebe o serviço, escolhido por quem carrega o corpo. Tudo que foge disso caminha na direção do paternalismo, que é a forma mais educada do controle, e do mercantilismo de audiência, que é a forma mais esperta do lucro disfarçado de utilidade pública.
Assista se quiser, o telespectador adulto é soberano sobre o próprio tempo, e essa soberania é sagrada. Mas assista com a régua certa no bolso. Trate o programa como o que ele é, um produto de mídia com apresentadora médica, não como oráculo semanal da sabedoria clínica. Faça sempre a pergunta que nenhum break comercial responde, quem paga a conta e quem recebe o cheque, porque a resposta honesta a essas duas perguntas explica noventa por cento do que você acabou de ver. O resto é iluminação de estúdio.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.