Uma médica respeitada resolve dedicar uma edição inteira de um programa semanal ao jejum, e a simples existência do debate já produz aquele ruído desconfortável nos corredores das grandes corporações alimentícias. Repare na cena com calma. Existe um país inteiro adoecendo de obesidade, diabetes e síndrome metabólica, e ainda assim a pergunta "será que comer menos vezes ao dia pode fazer bem?" soa quase como provocação. Por quê? Porque há sessenta anos nos ensinaram que pular refeição é pecado mortal, que o café da manhã é a refeição mais importante do dia, que ficar sem lanchinho de três em três horas é negligência com a própria saúde. Quem nos ensinou isso? Spoiler: não foram os monges do deserto.

Siga o rastro do dinheiro e a paisagem clareia. A doutrina das seis refeições diárias não nasceu de revelação hipocrática nem de descoberta laboratorial desinteressada. Nasceu de departamento de marketing. Cereais matinais, barrinhas energéticas, biscoitos recheados, iogurtes funcionais, sucos industrializados, vitaminas em pó, shakes substitutos. Cada uma dessas categorias precisa de uma justificativa fisiológica para existir, e a justificativa virou catecismo nutricional: você precisa comer sempre, senão desmaia, senão perde massa muscular, senão entra em modo de economia, senão morre. Engraçado como nossos avós, que comiam três vezes ao dia e às vezes pulavam o almoço para terminar o serviço na roça, conseguiam chegar aos noventa anos sem suplemento de colágeno.

O incômodo com o jejum tem a mesma natureza do incômodo com qualquer hábito que dispense intermediário pago. É a velha lógica do controle disfarçado de cuidado. Se a pessoa descobre que pode passar dezesseis horas sem comer e se sentir melhor, mais lúcida, mais leve, ela deixa de comprar três produtos do supermercado e uma consulta na clínica de emagrecimento. Multiplique isso por alguns milhões de brasileiros e você entende por que o assunto exige tantos especialistas vindos a público para alertar sobre os riscos, os perigos, as contraindicações, sempre com aquele tom solene de quem está protegendo o rebanho da própria ignorância. O rebanho, claro, é a fonte da receita.

Há uma observação antiga que vale para política e vale para nutrição: as coisas são o que são, não o que a propaganda diz que são. Jejuar não é dieta da moda, não é invenção californiana, não é radicalismo de influenciador. É prática humana milenar, presente em praticamente toda tradição religiosa séria, recomendada por motivos que vão da disciplina espiritual à simples observação empírica de que o corpo funciona melhor quando não está permanentemente ocupado em digerir. O que mudou não foi a fisiologia humana. Mudou o modelo de negócio que se interpôs entre o sujeito e a própria fome.

Por isso o programa importa, ainda que pareça assunto pequeno diante das outras tragédias nacionais. Cada vez que alguém com credibilidade técnica devolve ao indivíduo a autoridade sobre o próprio corpo, um pedaço da engrenagem que vive da sua dependência range. Não é coincidência que as recomendações oficiais sobre alimentação tenham sido escritas, durante décadas, com participação generosa das indústrias que vendem exatamente os produtos recomendados. A pirâmide alimentar não desceu do Sinai. Foi desenhada em sala de reunião, com lobistas presentes e canetas pagas. Quem paga a pesquisa costuma ganhar a conclusão.

No fim das contas, a pergunta que abre todo debate honesto continua valendo: quem paga e quem recebe quando você acredita que precisa comer de três em três horas? Você paga, em dinheiro, em saúde e em autonomia. Recebem os que vendem comida ultraprocessada disfarçada de necessidade biológica, e os profissionais que vivem de administrar o estrago que esses produtos causam. Discutir jejum em rede aberta não é fazer apologia de extremismo dietético. É lembrar que existe um modo mais simples, mais barato e mais antigo de cuidar do próprio corpo, e que esse modo desagrada profundamente quem montou um império em cima da sua geladeira lotada.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.