Sábado, dezenove e meia, e a grande revelação televisiva é que respirar fundo faz bem. A apresentadora, de jaleco implícito e voz mansa, ensina ao telespectador que torcer o corpo em posições de réptil traz equilíbrio, serenidade e longevidade. Tudo muito edificante. Tudo muito conveniente. Porque enquanto o sujeito da classe média estica a lombar na sala de estar, o boleto do IPTU chega pela manhã, a conta de luz triplica no inverno, o supermercado revisa preço a cada quinze dias e o contracheque, esse, segue magro como monge em quaresma. Yoga é ótimo. Mas não desentorta carteira.
Há algo de profundamente cômico, e ao mesmo tempo revelador, na escolha editorial de transformar a postura do cachorro olhando para baixo em assunto de utilidade pública num país onde o governo consome metade de tudo que se produz antes mesmo do trabalhador acordar. O programa não mente, claro. Yoga faz bem mesmo. O que ele esconde, pela própria natureza do recorte, é que a maior fonte de estresse, insônia, hipertensão e crise de pânico do brasileiro médio não está na rigidez muscular, está na rigidez tributária. Não é o psoas que aperta. É a Receita.
Observe a engenhosidade do arranjo. Toda vez que se massifica um discurso de bem-estar individual, terapêutico, espiritualizado, desloca-se o eixo do problema de fora para dentro. A culpa pela exaustão deixa de ser do sistema que confisca seu trabalho e passa a ser sua, que não medita o suficiente. Você não está pobre porque o Estado torra o orçamento em emendas, estatais deficitárias e mordomias parlamentares. Você está pobre porque seus chacras estão desalinhados. Era assim que os antigos sacerdotes do Egito explicavam a colheita ruim: faltou oferenda. Mudou o figurino, manteve-se a função.
E note quem ganha com essa pauta domesticada. Ganha o anunciante que vende tapetinho, suplemento, app de meditação por assinatura. Ganha a indústria do bem-estar, que move bilhões globalmente vendendo calma a quem perdeu a paz pelas mãos de quem cobra imposto. Ganha sobretudo o poder político, que prefere mil vezes um cidadão sentado em posição de lótus a um cidadão de pé exigindo prestação de contas. Súdito alongado é súdito dócil. Súdito dócil paga em silêncio. Quem perde é o pagador, sempre o mesmo, aquele anônimo que sustenta a festa e recebe, em troca, conselho para inspirar pelo nariz.
Não há nada de errado em recomendar yoga. Há algo de muito errado em fingir que esse é o conteúdo de saúde mais urgente que se pode oferecer ao cidadão num momento em que a inflação corrói poupança, em que o juro real dispara, em que o salário derrete na boca do caixa. A verdadeira reportagem de saúde pública seria mostrar quanto do contracheque evapora antes de chegar em casa, e quem, exatamente, está do outro lado dessa evaporação. Mas essa pauta não rende patrocínio de academia, rende inimizade no Planalto. Por isso não vai ao ar às dezenove e meia de sábado.
Fica então a sugestão de exercício alternativo, gratuito e muito mais eficaz para a saúde cardiovascular do contribuinte. Antes de fechar os olhos para meditar, abra a planilha do orçamento doméstico, some todos os tributos diretos e indiretos que você pagou no último mês e respire fundo. Se ainda assim conseguir manter a serenidade, parabéns, você atingiu a iluminação. Se sentir o sangue subir, ótimo, é sinal de que ainda resta algo de saudável em você. O resto é tapetinho.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.