Toda vez que a televisão veste o jaleco, convém desconfiar. O programa de sábado, dezenove e meia, com a dermatologista célebre na cadeira de apresentadora, é vendido como serviço público, conteúdo de utilidade, missão civilizatória de informar o cidadão sobre seu próprio corpo. Mas televisão não é caridade, jaleco não é juramento de pobreza, e horário nobre custa caro. Quando algo gratuito chega embrulhado em produção cara, alguém pagou a conta antes do espectador sentar no sofá. A pergunta elementar, aquela que separa o adulto do consumidor infantilizado, é simples: quem financia esse ar de consultório montado num estúdio?
O formato é antigo, conhecido, eficaz. Pega-se uma autoridade legítima, médico de carreira longa, currículo respeitável, voz mansa, e empresta-se essa credibilidade ao roteiro semanal. O telespectador não vê propaganda, vê orientação. Não vê comercial, vê conselho. É o velho truque do oráculo de toga branca, herdado dos sacerdotes que liam entranhas em Roma e dos físicos de corte que receitavam mercúrio para os reis. A vestimenta muda, a função permanece: traduzir interesse particular em revelação universal. E quanto mais sóbrio o cenário, menos o público desconfia da bula que vem junto.
Não se trata de acusar a profissional, que é competente, nem de descartar o conteúdo, que pode até ser útil. Trata se de recusar a ingenuidade de tratar mídia patrocinada como ciência desinteressada. Por trás de cada quadro semanal sobre pele, sol, envelhecimento e protetor, há uma indústria bilionária de cosméticos, dermocosméticos e procedimentos estéticos que vive justamente da ansiedade que esses temas alimentam. O programa não precisa mentir uma única vez para servir perfeitamente a essa indústria. Basta escolher o que mostrar, quando mostrar e quem entrevistar. A censura mais eficiente nunca proibiu nada, apenas selecionou.
Some se a isso o detalhe institucional que ninguém comenta. A medicina televisionada caminha de mãos dadas com conselhos profissionais, agências reguladoras e ministérios que adoram ditar do alto o que o cidadão deve passar no rosto, no estômago e no pulmão. O médico vira porta voz, o porta voz vira política, e a política vira regulação que beneficia o laboratório grande e tritura o pequeno. O sujeito acha que está aprendendo a se cuidar; está, na verdade, sendo treinado para aceitar como evidente uma cadeia de obrigações de consumo e de submissão sanitária que enriquece sempre os mesmos e empobrece sempre os mesmos.
Há uma diferença abissal entre o médico que atende um paciente concreto, olha nos olhos, examina, erra e acerta, e a figura midiática que fala para uma plateia abstrata sobre uma saúde abstrata. O primeiro responde pelo que faz, o segundo responde pelo rating. O primeiro tem nome, sobrenome e CRM na sala de espera; o segundo tem cachê, contrato e patrocinador implícito no break comercial. Confundir os dois é o equívoco que transformou a medicina em entretenimento e o entretenimento em catequese sanitária, com sacerdotes de avental e fiéis de controle remoto.
Assistir, tudo bem. Aprender, melhor ainda. Mas faça o exercício elementar do cidadão livre antes de aceitar qualquer recomendação vinda do tubo luminoso da sala: pergunte quem paga o programa, quem vende o produto que se beneficia daquela conversa, e quem ganha a longo prazo com a ansiedade que aquele assunto desperta. Saúde de verdade começa quando se desliga o piloto automático da credulidade. O resto é vitrine bem iluminada, com música de fundo agradável e um jaleco branco impecavelmente passado a ferro.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.