Um programa de televisão noticia, quase como banalidade de sábado à noite, que um hospital do interior paulista está usando cirurgia robótica para tratar câncer. A cena merece pausa. Em um país onde a fila do oncológico vira estatística de obituário, onde paciente com nódulo espera meses por uma biópsia que nunca chega, eis que aparece um braço mecânico de precisão milimétrica retirando tumores com a delicadeza de um relojoeiro suíço. E o detalhe que ninguém quer sublinhar, porque sublinhá-lo destrói a teologia oficial do país, é simples: esse hospital não vive do imposto que o senhor paga. Vive da caridade que o senhor escolhe doar.

Repare na inversão. O contribuinte sustenta, à força de retenção na folha, de imposto embutido no pão, no remédio, na conta de luz, uma máquina pública de saúde que devolve fila, leito improvisado em corredor e médico desmotivado. O mesmo contribuinte, depois de pago o tributo, ainda enfia a mão no bolso voluntariamente e financia uma instituição que entrega robô cirúrgico de última geração a quem não tem onde cair morto. A pergunta que se impõe é geométrica: se o dinheiro confiscado produz miséria e o dinheiro doado produz milagre, qual dos dois sistemas merece ser chamado de solidário?

O arranjo é antigo e o cidadão finge não ver. O Estado coleta como se fosse Deus e gasta como se fosse cunhado. Há um andar inteiro de assessores, há comissão para discutir comissão, há rubrica para pagar a viagem do secretário que vai inaugurar o ambulatório que nunca abre. Enquanto isso, a santa casa do fim do mundo, aquela mantida por bazar de quermesse e testamento de viúva, instala equipamento que hospital de capital europeia inveja. Não é mágica. É a velha lei que ninguém revoga: dinheiro que sai do bolso do dono é gasto com olho de dono. Dinheiro arrancado pela ponta da baioneta é gasto com a leveza de quem nunca o suou.

Convém lembrar a quem aplaude estatização que a medicina moderna não nasceu em ministério. Nasceu em ordem religiosa, em sociedade beneficente, em médico que abria consultório no fundo da farmácia e cobrava o que o doente podia pagar. O hospital filantrópico brasileiro é herdeiro direto dessa tradição, e sobrevive apesar do Estado, não graças a ele. Cada centavo que escapa da garra do fisco e vai parar numa instituição como essa é um voto silencioso, um plebiscito diário em que o povo, mesmo amordaçado pela carga tributária, ainda consegue dizer onde quer que seu dinheiro produza fruto. E produz.

O moralista de plantão dirá que se trata de exceção, que o ideal seria universalizar pela via pública. Universalizar o quê? A fila? A negligência? O hospital que vira depósito de gente? A lógica é elementar: aquilo que funciona funciona porque tem dono, tem rosto, tem responsável que assina embaixo. Aquilo que pertence a todos não pertence a ninguém, e o que não pertence a ninguém apodrece. O robô cirúrgico do interior paulista é a refutação concreta, em aço inoxidável, da fábula de que o Estado é indispensável à compaixão. Compaixão se faz com bolso aberto, não com arma na cintura cobrando alíquota.

Então quando o noticiário de sábado mostrar a maravilha da medicina de ponta operando em hospital sustentado por doadores, não trate como pieguice de fim de semana. Trate como manifesto. Cada paciente curado ali é uma denúncia silenciosa contra o sistema que prometeu tudo, confiscou metade do que o senhor produz e devolveu corredor lotado. O verdadeiro escândalo não é que exista um hospital assim. O escândalo é que precise existir, porque o monopolista da saúde fracassou redondamente e ainda exige aplausos pelo fracasso.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.