O programa de saúde da emissora vai ao ar no sábado à noite, naquele horário em que o brasileiro médio já está cansado demais para discutir, e traz como tema "o reforço da Covid: ainda é necessário?". A pergunta, em si, parece honesta, quase corajosa, como se a televisão tivesse descoberto agora, em 2026, que existe espaço para dúvida sobre um protocolo que foi vendido durante anos como dogma inquestionável. Curioso, não? Em 2021, quem ousasse formular exatamente essa frase no ar era expulso da praça pública, rotulado, demonetizado, escorraçado. Hoje, a mesma frase vira chamada de programa. O que mudou não foi o vírus, foi a conveniência.

Antes de discutir se o reforço é necessário, convém perguntar quem se beneficia da dúvida permanente. A indústria farmacêutica global faturou, durante a pandemia, quantias que fariam corar qualquer barão do petróleo do século passado. Contratos sigilosos com governos, cláusulas de irresponsabilidade civil, compras antecipadas pagas com dinheiro de imposto, ou seja, dinheiro tirado à força do bolso do sujeito que nem sabia que estava financiando a própria medicação compulsória. O esquema é elegante na sua simplicidade: o laboratório desenvolve, o Estado compra, o cidadão paga duas vezes, uma no boleto e outra no braço. E todo ciclo de reforço é um novo pedido de compra, uma nova licitação, uma nova festa.

O argumento da necessidade médica vem sempre embrulhado em papel celofane científico, mas raramente acompanhado dos números que importam. Qual a redução absoluta de risco? Qual o perfil etário que de fato se beneficia? Quais os eventos adversos relatados e quantos foram efetivamente investigados? Essas perguntas, que seriam o feijão com arroz de qualquer jornalismo digno do nome, somem do roteiro. No lugar entra a figura simpática do especialista, o cenário asséptico, a trilha tranquilizadora, e a conclusão já vinha pronta antes da primeira pergunta ser formulada. É teatro, e teatro caro, porque o ingresso está embutido na sua declaração de imposto de renda.

Há uma lógica de ferro aqui que ninguém escapa. Se a vacinação encerra a pandemia, não há mais mercado. Se a pandemia nunca acaba, o mercado é eterno. Entre essas duas premissas, qual delas serve melhor aos balanços trimestrais? A resposta é tão óbvia que ofende. E é por isso que o vocabulário muda: deixou de ser "imunização" para virar "atualização", como se o corpo humano fosse um aplicativo de celular que precisa de patch a cada seis meses sob pena de ficar obsoleto. A metáfora não é inocente, ela treina o público para aceitar a assinatura vitalícia de um serviço que ele nunca contratou.

Vale lembrar que toda grande mentira sanitária da história precisou de três ingredientes para se sustentar: a autoridade do jaleco, o medo da plebe e o silêncio do contraditório. Foi assim com a sangria, foi assim com a lobotomia, foi assim com tantos consensos médicos que hoje são piada em sala de aula. A diferença é que naqueles tempos o erro era artesanal, custava pouco e morria com o paciente. Hoje o erro é industrial, custa trilhões e morre na ata da próxima reunião de acionistas, que decide simplesmente lançar a nova versão do produto. O remédio para o fracasso do remédio é sempre mais remédio.

A pergunta que o programa coloca, então, merece ser devolvida com juros. Reforço para quem, decidido por quem, pago por quem, lucrando para quem? Enquanto o telespectador não responder essas quatro perguntas antes de estender o braço, ele continuará sendo, ao mesmo tempo, o cliente, o produto e o financiador da festa alheia. Há poucas posições mais humilhantes na economia moderna, e quase nenhuma tão bem disfarçada de cuidado.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.