Sábado, dezenove e meia da noite, e a televisão dedica meia hora nobre para ensinar o brasileiro a respirar. Não a respirar fundo diante do boleto, do imposto retido na fonte, da gasolina que subiu de novo, do pão que encolheu mais um grama. Não. Respirar como técnica, como postura, como filosofia importada que chega embalada em trilha sonora suave e iluminação âmbar. O programa fala de yoga, dos benefícios à saúde, da paz interior. E assim vai-se enchendo o tempo do espectador com aquilo que jamais o incomodará, jamais o organizará, jamais o fará perguntar coisa alguma a ninguém com poder de decisão sobre a vida dele.

Não há nada de errado, em si, com sentar de pernas cruzadas e prestar atenção na própria respiração. O problema é o lugar que essa coisa ocupa na dieta cultural de um povo. Quando uma sociedade está sendo lentamente esmagada por uma carga tributária que beira o confisco, por uma moeda que perde valor a cada manhã, por uma máquina pública obesa que devora dois terços de tudo que se produz, a pauta da serenidade interior deixa de ser inocente. Vira anestésico. Vira aquela tacinha de licor que se oferece ao paciente antes de cortar a perna sem antibiótico. Beba, meu filho, vai doer menos.

Siga a trilha do dinheiro e tudo se ilumina. Quem ganha quando o cidadão aprende a "aceitar o que não pode mudar"? Ganha o burocrata que aumentou a alíquota na calada da noite. Ganha o ministro que criou a taxa nova com nome bonito. Ganha o banqueiro central que imprime e dilui a poupança alheia. Ganha o regulador que escreveu as trezentas páginas de norma técnica que tornaram impossível abrir uma padaria sem dois anos de papelada. Todos esses senhores dormem melhor sabendo que, no sábado à noite, o sujeito que eles esfolam durante a semana está em casa fazendo a postura do cachorro olhando para baixo, sentindo gratidão pelo ar que entra nos pulmões. Gratidão é o sentimento preferido de todo arrecadador.

Há uma diferença gigantesca, e ninguém ousa dizê-la, entre a virtude antiga da temperança e a passividade contemporânea vendida como espiritualidade. A primeira fortalecia o homem para enfrentar o tirano de cabeça erguida. A segunda o convence de que o tirano é uma ilusão da mente agitada e que tudo se resolve com mais oxigênio no diafragma. Uma forma o caráter, a outra dissolve o caráter. Uma produz cidadãos, a outra produz consumidores dóceis de chá de camomila e sabedorias asiáticas reembaladas para o gosto burguês de quem já desistiu de brigar pelo próprio dinheiro.

É curioso que a grade de programação dos grandes veículos esteja sempre cheia de yoga, meditação, alimentação consciente, mindfulness corporativo, e nunca, jamais, de uma reportagem séria explicando linha por linha como o Estado consome a renda do trabalhador antes mesmo de ela cair na conta. Não é coincidência, não é acaso, não é distração editorial. É a divisão clássica do trabalho ideológico: enquanto uma parte do espetáculo entretém, a outra parte legisla. E o povo, devidamente alongado e centrado, segue pagando a conta de tudo, inclusive da própria sedação.

Respire fundo, sim, mas com os olhos abertos. Olhe para o contracheque antes de olhar para o terceiro chacra. A serenidade que importa não é a do tatame, é a do homem que sabe exatamente quanto lhe foi tomado, por quem, com qual desculpa, e não aceita mais ser tratado como criança a quem se distrai com mantra para que não note o roubo. O resto é entretenimento. Bonito, calmo, terapêutico, e absolutamente funcional para quem precisa de um país adormecido no sábado à noite.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.