Oito crianças mortas em Shreveport, no domingo dia dezenove, vítimas de um ataque a tiros cujas balas não discriminaram entre o bebê de um ano e o adolescente de quatorze. Não é notícia, é obituário coletivo. E como todo obituário coletivo nos Estados Unidos, vem acompanhado do ritual previsível: velas, microfones, governadores de terno escuro, a liturgia da comoção televisionada e, sobretudo, a corrida para transformar oito caixões pequenos em munição retórica para a próxima rodada orçamentária de alguém.
Louisiana não é nenhuma ilha perdida no Pacífico. É um dos estados mais policiados, mais vigiados, mais regulados e mais sangrentos da federação americana, um paradoxo que só parece paradoxo para quem ainda acredita na fábula de que o aparato público existe para proteger o cidadão comum. Shreveport tem departamento de polícia, tem promotoria, tem programas federais contra violência urbana financiados a peso de ouro há décadas. E tem, também, bairros inteiros onde a autoridade estatal aparece depois do tiro, nunca antes, porque a função real desse aparato nunca foi prevenir crime no subúrbio pobre, foi administrar estatística e justificar orçamento.
Siga o dinheiro e o cenário se clareia. Há uma indústria inteira construída sobre a violência urbana americana, e ela prospera na proporção direta em que fracassa. Secretarias de segurança, fundações filantrópicas, consultorias de políticas públicas, ONGs de reinserção, programas federais com siglas de quatro letras, todos vivem do problema e nenhum vive da solução. O massacre de oito crianças será, dentro de setenta e duas horas, citado em pelo menos três pedidos de verba e em uma dúzia de editoriais pedindo mais Estado, mais controle, mais imposto, mais de tudo aquilo que já existia em abundância na Louisiana no domingo em que as balas entraram.
O truque retórico também é velho e manjado. Diante do cadáver, o debate será sequestrado em dois minutos para a discussão da arma, nunca da mão que a segurou nem do arranjo social que produziu aquela mão. A arma é conveniente porque é objeto, e objeto não vota, não financia campanha, não precisa ser responsabilizado. Já o sujeito concreto, o criminoso específico, a família destruída antes do crime, a escola que virou depósito, o programa social que serviu de antessala para o recrutamento, esses são incômodos, esses exigiriam admitir que décadas de engenharia social trilionária entregaram o resultado que agora se lamenta em rede nacional.
Premissa maior, todo monopólio que cobra pelo serviço tem a obrigação moral de entregá lo. Premissa menor, o Estado cobra trilhões em nome da segurança pública e reivindica para si, com exclusividade, o uso legítimo da força. Conclusão inevitável, quando oito crianças são fuziladas numa tarde de domingo na cidade que ele diz proteger, não se trata de tragédia imprevisível, trata se de inadimplência contratual em escala macabra. O contribuinte pagou pela proteção, recebeu o funeral, e ainda será convidado a pagar mais no próximo ciclo orçamentário, em nome das vítimas que o próprio sistema não soube impedir.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta deste episódio. Quem paga? Paga o pai daquelas crianças, paga a vizinha que trabalha em três turnos, paga o pequeno comerciante da esquina, paga todo americano médio que financia, via imposto, a máquina que falhou no domingo. E quem recebe? Recebem os gestores que amanhã pedirão reforço de dotação, os ativistas profissionais que já têm o discurso pronto, os políticos que usarão os oito nomes como legenda de campanha, e a burocracia eterna que aprendeu, há muito, que criança morta rende mais manchete do que criança viva rende orçamento. O resto é vela acesa e hipocrisia sob holofote.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.