A Omnicell foi à conferência de saúde da Wells Fargo contar aos analistas que existe um "ciclo de renovação" batendo à porta, e que os hospitais americanos vão precisar, coincidentemente agora, trocar frotas inteiras de dispensadores automáticos de medicamento comprados há uma década. Traduzindo do inglês corporativo para o português honesto: a empresa precisa que o mercado acredite que o próximo trimestre não vai ser igual aos anteriores, porque a ação anda de lado e o investidor institucional está começando a desconfiar de que "transformação digital do fluxo de medicamentos" é slogan, não plano de negócios.

Olha, ninguém está negando que máquina velha um dia é substituída. O problema é quando a tese de investimento inteira depende de uma onda de compra que ninguém sabe se vem, quando vem, nem em que volume. Isso não é análise, é torcida organizada com terno. E o mais engraçado é que o palco escolhido para vender esse conto foi justamente o de um banco cuja seção de saúde vive de acreditar em ciclos milagrosos, porque banco não ganha comissão de empresa que fica parada; ganha de empresa que emite dívida, faz aquisição, anuncia recompra. O incentivo de quem organiza a conferência é o mesmo de quem sobe no palco.

Agora, vamos ao que ninguém quer dizer em voz alta. A Omnicell não existiria no tamanho em que existe se o sistema de saúde americano fosse um mercado de verdade. Ele é um leviatã que consome quase um quinto do PIB dos Estados Unidos, sustentado por Medicare, Medicaid, seguros obrigados por regulação e hospitais que faturam por procedimento porque é assim que a lei mandou faturarem. Nesse pântano, um dispensador automático de vinte mil dólares por unidade vira "investimento estratégico", e o CFO do hospital assina sem piscar, porque o custo vai ser repassado ao pagador final, que é, no fim da linha, o contribuinte americano ou o trabalhador que teve o plano descontado do salário. Máquina cara em hospital rico existe porque tem dinheiro fácil circulando, não porque a máquina cura alguém.

Me diz uma coisa: se o mercado hospitalar fosse aberto, com o paciente pagando do bolso e escolhendo onde ser atendido, quantos hospitais achariam que trocar toda a frota de dispensadores porque o vendedor disse que é "ciclo de renovação" seria uma boa ideia? A resposta é zero. O que sustenta o modelo de negócio da Omnicell não é a excelência do produto, é a arquitetura regulatória que transforma custo em receita garantida no outro lado do balcão. É o mesmo mecanismo que faz uma aspirina custar quinze dólares no pronto-socorro de Manhattan. Não é preço de mercado, é preço de arranjo.

E existe ainda a camada mais sutil, a que os apresentadores da conferência jamais mencionariam. Quando uma empresa consegue construir um fosso baseado em contratos de manutenção plurianuais, integração com sistemas hospitalares proprietários e certificações regulatórias que só ela e mais dois concorrentes conseguem obter, ela deixou de ser empresa e virou pedágio. Pedágio não precisa inovar, precisa apenas continuar existindo entre o remédio e o paciente. E é isso que o investidor está comprando quando compra Omnicell: não uma tese de crescimento, mas um assento na plateia da cobrança automática de um sistema que ninguém tem coragem de reformar.

O ciclo de renovação, se vier, virá porque o dinheiro público continua jorrando e os hospitais continuam sem incentivo para economizar. Se um dia esse fluxo secar, e vai secar, porque nenhum país sustenta indefinidamente vinte por cento do PIB em saúde administrada, o "ciclo de renovação" da Omnicell vai virar ciclo de demissão, provisão para obsolescência e nota de rodapé nos relatórios de gestão. Enquanto isso não acontece, o show continua, o CEO sorri no palco, o analista faz uma pergunta amigável, e a plateia bate palma porque foi para isso que foi convidada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.