Três pessoas pagaram caro, em todos os sentidos, por uma viagem que prometia coquetéis ao pôr do sol e terminou em saco plástico. Morreram de hantavírus, doença transmitida por roedores, dentro de um navio de cruzeiro que cruzava o Atlântico como se fosse um hotel cinco estrelas flutuante. A burocracia sanitária internacional, depois que os corpos esfriaram, resolveu então fazer o que melhor sabe: emitir notas, abrir investigações, coordenar evacuações e, sobretudo, aparecer nas manchetes com ar grave de quem está salvando o mundo. Cinco suspeitos a bordo, dizem. O número de comunicados oficiais, esse, ninguém contou.

Repare na coreografia. O navio é privado, a empresa cobra dezenas de milhares de dólares por cabine, o passageiro embarca confiando que alguém, em algum lugar, fiscalizou a higienização dos compartimentos, o controle de pragas, o protocolo médico de bordo. Esse alguém, em tese, é justamente a constelação de agências internacionais que recebe bilhões anuais para garantir que ratos não façam companhia a aposentados em viagem de núpcias tardias. Aconteceu o desastre. E qual é a resposta institucional? Investigar depois. Nunca antes. O bombeiro só chega quando a casa virou cinza, e ainda manda a conta da gasolina do caminhão.

A pergunta que o noticiário educado se recusa a fazer é a única que importa: quem pagou pelo silêncio anterior e quem vai receber pelo barulho de agora? As grandes operadoras de cruzeiro mantêm exércitos de lobistas em Genebra, em Bruxelas, em Washington, exatamente para que protocolos sanitários sejam suficientemente rigorosos no papel e suficientemente frouxos no convés. Quando o cadáver aparece, a mesma agência que recebeu para olhar para o outro lado recebe de novo, agora para investigar. É o modelo de negócio mais elegante já inventado: o vigia cobra para vigiar, cobra de novo quando falha em vigiar, e termina o ciclo escrevendo o relatório que inocenta a si mesmo.

Há séculos, quando uma frota mercante chegava a um porto trazendo peste, os marinheiros eram obrigados a ficar quarenta dias ancorados longe da costa, e dessa contagem nasceu a palavra quarentena. Era brutal, era simples, era eficaz, e custava ao contribuinte exatamente zero, porque o ônus recaía sobre o armador, dono da carga e da consequência. Hoje temos o oposto perfeito: o armador socializa o prejuízo via seguros estatais e tratados internacionais, o passageiro morto vira estatística num boletim em três idiomas, e a conta da investigação cai no orçamento de saúde pública de países que sequer têm cidadãos a bordo. Progresso, dizem.

O hantavírus, convém lembrar, não é um vírus exótico saído de laboratório secreto. É doença de rato em ambiente sujo. Transmite-se por excrementos, urina, poeira contaminada de porão mal limpo. Para haver três mortes confirmadas e cinco casos suspeitos num único navio, foi preciso uma cadeia inteira de incompetências encadeadas, da estiva ao restaurante, da cozinha ao ar-condicionado. Nada disso é mistério científico. É falência operacional disfarçada de fatalidade. Mas a fatalidade vende melhor que a negligência, e os comunicados oficiais sempre escolherão o substantivo que protege o anunciante.

No fim, o leitor faz a contabilidade sozinho. Três famílias enterram parentes. Uma empresa multinacional perde um trimestre de imagem e ganha um cheque do seguro. Uma agência multilateral arrecada novo aporte emergencial dos países membros para reforçar protocolos que já existiam e ninguém cumpria. E o passageiro do próximo cruzeiro embarcará com a mesma fé do anterior, convencido de que daquela vez será diferente, porque agora há uma força tarefa, um comitê, um relatório em PDF com selo dourado. O rato continua no porão, rindo. E ele, ao menos, viaja de graça.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.