Três corpos a mais boiando no Pacífico nesta semana, somados aos cento e noventa e seis que já tinham virado estatística desde 2025, e a manchete oficial vende isso como "operação contra o narcotráfico". Repare na engenhoca semântica: não houve abordagem, não houve revista, não houve apreensão exibida em coletiva com fardos empilhados e cães farejadores posando para a foto. Houve míssil. Houve embarcação pulverizada. Houve, em linguagem que a diplomacia evita, execução sumária em águas internacionais por suspeita não comprovada. E o mundo, anestesiado por três décadas de "guerra ao terror", engole isso entre um gole de café e a próxima notificação do celular.

O detalhe que ninguém quer encarar é o seguinte: cento e noventa e nove pessoas foram mortas sem que nenhum tribunal, nenhum júri, nenhum juiz, nenhum advogado de defesa, nenhuma testemunha tenha sido convocada. A presunção de inocência, aquela coisinha que custou séculos de sangue para arrancar das mãos dos reis absolutistas, foi jogada na água junto com os destroços. E o argumento é sempre o mesmo, repetido com a cadência hipnótica de um padre-nosso burocrático: são traficantes, são bandidos, são inimigos da nação. Pode até ser. Mas a partir de quando a palavra do executor virou prova suficiente para autorizar o tiro? Essa pergunta, antiga como a tirania, continua sem resposta, e a ausência de resposta é a resposta.

Agora siga a trilha do dinheiro, que é onde toda virtude oficial costuma tropeçar. A "guerra às drogas" é, há cinquenta anos, o mais lucrativo programa de transferência de renda do contribuinte americano para três setores muito específicos: a indústria bélica, que vende os mísseis, os drones, as fragatas e os radares; a burocracia federal, que infla orçamentos a cada nova fase da cruzada; e o complexo carcerário, que precisa de corpos para encher celas privatizadas remuneradas por cabeça. Cada pescador pobre transformado em pó no Caribe ou no Pacífico justifica o próximo trilhão de dólares no orçamento de defesa. O cadáver é commodity, e a commodity tem cotação alta em ano eleitoral.

O cinismo histórico desse teatro beira o cômico. Os mesmos Estados Unidos que, nos anos oitenta, armaram a Contra nicaraguense com dinheiro do tráfico de cocaína; que toleraram décadas de cultivo no Triângulo Dourado enquanto aliados estratégicos lucravam; que viram a produção de ópio no Afeganistão explodir justamente sob ocupação militar de vinte anos; agora se apresentam como xerife moral dos mares do sul. É a mesma lógica do incendiário que vira bombeiro e cobra hora extra para apagar o próprio fogo. Quem financia a demanda? O consumidor americano. Quem lucra com a repressão? A burocracia americana. Quem morre? Geralmente um latino pobre numa lancha de fibra. O esquema é tão redondo que dá vertigem.

E observe a esperteza retórica de chamar isso de "operação". Operação é palavra clínica, asséptica, que evoca sala cirúrgica e bisturi preciso. Disfarça que do outro lado do míssil havia gente, possivelmente culpada, possivelmente inocente, possivelmente um adolescente recrutado por dez dólares para pilotar uma embarcação que ele nem sabia o que carregava. Mas chamar de "fuzilamento sem processo" estragaria o telejornal das oito. Chamar de "execução extrajudicial" obrigaria a Organização das Nações Unidas a fingir indignação por meia hora. Então fica "operação", fica "ataque cirúrgico", fica "neutralização de alvo", e a linguagem cumpre seu papel ancestral de lavar a roupa suja do poder antes que o cheiro chegue ao nariz do eleitor.

A pergunta que fica, e que ninguém em Washington terá coragem de responder, é simples: se amanhã o governo brasileiro resolver afundar lanchas suspeitas no Atlântico sem perguntar nome, será chamado de quê pela diplomacia americana? Quando o monopólio da violência se desamarra das amarras processuais, ele não para mais. Vira hábito. Vira política. Vira normal. E quando vira normal, a próxima embarcação a ser pulverizada pode estar carregando qualquer coisa que o governo da vez decida chamar de ameaça. Hoje é cocaína. Amanhã é dissidência, é refugiado, é jornalista incômodo. A história não tem imaginação, ela só repete o mesmo enredo com figurino atualizado.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.