A cena beira o cômico, não fosse trágica para o bolso de quem paga a conta. O governo que decretou a famigerada taxa sobre as compras internacionais de até cinquenta dólares, aquela que despachou para a vala comum do orçamento doméstico o sonho da blusinha de vinte reais, agora anuncia em alto e bom som que vai acabar com a própria invenção. E espera, com a cara mais lavada do mundo, que o eleitor confunda o piromaníaco com o bombeiro. A oposição grita eleitoreiro, e pela primeira vez em muito tempo está dizendo uma obviedade que dispensa decodificador.

Convém recordar o enredo, porque memória curta é o adubo predileto do populismo. A tal taxação foi parida pelo mesmo Planalto, sob o pretexto evangelizador de proteger a indústria nacional do dumping chinês. Argumento bonito no discurso, mentira deslavada na contabilidade. Quem foi protegido não foi o operário de Americana nem a costureira do Brás, foi o varejo gigante já instalado, que enxergava com pavor a concorrência de um aplicativo asiático vendendo direto ao consumidor sem atravessador. Traduzindo do economês para o português: cobraram do pobre o pedágio para que o rico não precisasse abaixar o preço. A propaganda chamou isso de soberania nacional. O dicionário chama de reserva de mercado, irmã siamesa do cartel autorizado por carimbo oficial.

Agora, faltando pouco para o calendário eleitoral apertar, eis que o mesmo dedo que assinou o confisco assina a revogação. Não há conversão de Damasco, não há epifania liberal no terceiro andar do Planalto, há cálculo de urna na ponta do lápis. O sujeito que furtou a carteira no semáforo devolve metade do dinheiro duas quadras adiante e exige gratidão pela honestidade tardia. A lógica é elementar e cabe num silogismo de cozinha: quem cria o problema para depois vendê-lo como solução não é estadista, é vigarista de praça. Se a taxa era necessária ontem para salvar empregos sagrados, por que deixa de ser necessária hoje, justamente quando o eleitor está irritado e o ministro do varejo vê pesquisa? A resposta é tão constrangedora que ninguém ousa formulá-la em microfone aberto.

Siga o dinheiro e a fumaça se dissipa. A taxa rendeu bilhões em receita, todos extraídos do bolso da dona de casa que comprava aviamento, do estudante que importava componente eletrônico, do trabalhador que economizava para presentear o filho. Esse dinheiro não voltou para o consumidor, virou combustível para a máquina que agora promete clemência. O Estado opera como aquele agiota generoso que perdoa os juros depois de cobrar três vezes o principal, e ainda sai do bairro com fama de bom moço. Os benefícios da revogação serão capitalizados em palanque, os custos do imposto já foram socializados em silêncio. Lucro político privatizado, prejuízo financeiro coletivizado, a fórmula mais antiga do compêndio.

Há uma lição mais funda nessa palhaçada, e ela não está no varejo nem na alfândega, está na natureza do bicho. Tributo criado por canetada vira tributo eterno em noventa e nove por cento dos casos, e quando excepcionalmente cai é porque virou liability eleitoral, nunca porque o governante descobriu virtude. O que se chama de política pública é, quase sempre, transferência forçada de patrimônio de quem produz para quem articula, com pedágio garantido para os intermediários da regulação. Cada nova medida provisória é uma tarifa disfarçada, cada nova agência é um cartório a mais entre o sujeito e o que ele queria comprar. E o povo, treinado em catecismo televisivo, aplaude o algoz quando ele afrouxa a corda por trinta segundos.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise séria sobre o assunto, e que o noticiário oficial nunca formula com a clareza devida. Quem pagou pela taxa das blusinhas durante todos esses meses, e quem vai receber o crédito político por aboli-la agora? Pagaram os de sempre, os que não têm assessoria parlamentar nem lobby contratado na Esplanada. Vão receber os de sempre, os que confundem governar com encenar. Entre o tarifaço que empobrece e o perdão que reelege existe um único beneficiário constante, e ele não mora na sua casa.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.