Cinquenta. O número é tão obsceno que merece ser repetido em voz alta para que o ouvido registre o absurdo: cinquenta pedidos de impeachment protocolados desde 2021 contra um único ministro do Supremo, e o resultado prático, mensurável, palpável no mundo real, é exatamente zero. Nenhum. Nada. Nem uma audiência, nem uma sabatina, nem o constrangimento mínimo de uma resposta protocolar. A bancada da Câmara anuncia para esta terça-feira mais um documento, o quinquagésimo primeiro talvez, e a notícia chega ao leitor com a mesma intensidade emocional de uma previsão do tempo em cidade onde nunca chove. Porque não vai dar em nada. Todo mundo sabe que não vai dar em nada. E a graça macabra do arranjo é justamente essa: o ritual continua sendo encenado porque a encenação é o produto.

Pergunte ao homem comum, aquele que paga IPVA com dinheiro que sobrou do feijão, o que acontece se ele descumprir uma decisão judicial. Vai responder na hora: oficial de justiça, penhora, bloqueio de conta, sirene. A lei, para o cidadão pagador, tem dentes afiadíssimos. Agora inverta a câmera. O que acontece quando o togado descumpre a Constituição, censura por ofício, prende sem trânsito em julgado, expande competências que ninguém lhe deu? Acontece um pedido de impeachment que vai morrer engavetado na mesa do presidente do Senado, ao lado dos outros quarenta e nove. A regra é simples e nunca falha: a lei desce, nunca sobe. Quem mora no andar de cima legisla sobre quem mora no térreo, e quem mora no térreo aplaude porque acha que está protegido contra o vizinho.

Vale insistir na aritmética, porque a aritmética é teimosa. Cinquenta pedidos em quatro anos significa, na média, mais de um pedido por mês. Se metade fosse frívola, ainda restariam vinte e cinco protocolos sérios, assinados por parlamentares eleitos, com fundamentação jurídica, distribuídos a um Senado que tem a obrigação constitucional de processá-los. Nenhum andou. Nenhum andou porque processar significaria expor o arranjo, e o arranjo é o seguinte: o togado garante a sobrevivência política de quem comanda o Senado, e o Senado garante a impunidade do togado. Vocês me coçam as costas, eu coço as suas, e o contribuinte segura a vela enquanto a coreografia se repete. Os romanos chamavam isso de cumplicidade entre pretores e tribunos, e o resultado, dois mil anos depois, é sempre o mesmo: a república vira fachada, o poder vira clube, e o cidadão vira espectador pagante de uma peça em que ele mesmo é o personagem secundário humilhado no terceiro ato.

O detalhe que ninguém quer enfrentar é o seguinte: o instituto do impeachment foi desenhado precisamente para esse tipo de situação. Existe para conter excessos de quem detém parcela monopolizada do poder estatal, sob pena de a engrenagem perder o último freio e virar pura vontade pessoal vestida de toga. Pois bem, o freio foi serrado. O parafuso caiu. E nenhum mecânico aparece porque os mecânicos são os mesmos donos da oficina, e a oficina lucra mais com o carro desgovernado. Quanto mais o togado expande competências, mais útil ele se torna a quem precisa de decisões convenientes em momentos convenientes, e mais imune fica de qualquer responsabilização. A pergunta correta nunca foi se ele errou. A pergunta correta é a quem ele serve. Responda essa, e os cinquenta pedidos engavetados deixam de ser mistério.

Há ainda a parte cômica, que merece registro porque o ridículo é um instrumento legítimo de análise política. A oposição, que protocola o pedido de número cinquenta e um, sabe perfeitamente que ele vai para a gaveta. Vai protocolar mesmo assim. Por quê? Porque o gesto rende voto, rende reels, rende discurso inflamado no plenário vazio às onze da noite. É teatro contra teatro. Um lado encena indignação, o outro lado encena que recebeu a indignação, e os dois saem do palco com o cachê garantido pelo mesmo pagador involuntário, que é você. O leitor que financiou esse circo com seu imposto de renda retido na fonte, com seu ICMS embutido no preço do pão, com sua contribuição previdenciária que nunca vai voltar. O contribuinte é o trouxa que compra ingresso para assistir ao espetáculo em que ele próprio é satirizado.

Resta o de sempre, a única pergunta que importa quando o resto da poeira assenta: quem paga e quem recebe. Paga o cidadão que sustenta tribunal, Senado, Câmara, assessoria de imprensa, gabinete, segurança pessoal e aposentadoria integral de todos os envolvidos. Recebe o clube fechado que descobriu que a melhor forma de não ser julgado é controlar o juízo. Cinquenta pedidos depois, o veredito está dado, e ele não foi proferido por nenhum colegiado: foi proferido pelo silêncio. O silêncio é a sentença mais eloquente que uma república em decomposição consegue produzir. E enquanto o silêncio durar, o togado segue intocável, a oposição segue protocolando, e o pagador segue pagando. Tudo nos conformes. Tudo conforme o combinado. Tudo, exceto a Constituição, que virou enfeite de parede.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.