Viktor Orbán perdeu. Aceitou a derrota, reconheceu o resultado, não mandou o exército para a rua nem pediu ao Tribunal Constitucional que invalidasse as urnas. Fez, em suma, exatamente o que se espera de um político que perde uma eleição num regime democrático funcional. E aqui começa o problema, porque durante quinze anos a imprensa europeia, o establishment de Bruxelas e boa parte dos analistas de plantão repetiram, com a convicção de quem leu num papel que não escreveu, que Orbán era um autocrata, um proto-ditador, um destruidor do Estado de Direito. Um homem assim não perde eleições. Ou melhor: quando perde, não vai embora. A saída pacífica de Orbán é, portanto, uma anomalia que deveria forçar uma revisão do diagnóstico, mas não vai forçar nada, porque revisão exige honestidade intelectual, e honestidade intelectual é o bem mais escasso na praça política contemporânea.
Há uma distinção antiga, e importante, entre o governante que concentra poder dentro das instituições e o tirano que as destrói para colocar o poder no próprio bolso. Orbán fez a primeira coisa, com agressividade e método, não há dúvida. Reformou a Constituição, redesenhou o sistema eleitoral, pressionou a mídia, aparelhou o judiciário com aliados, usou os fundos europeus com a discrição de quem faz um churrasco às três da manhã sem acordar o vizinho. Isso é exercício autoritário do poder legítimo, o que é grave e merece crítica séria. Mas é categoricamente diferente de uma ditadura. A diferença não é cosmética. É a diferença entre um cirurgião que opera sem anestesia e um açougueiro. O resultado pode ser igualmente sangrento, mas a natureza do ato não é a mesma, e confundi-los serve apenas a quem precisa de monstros para justificar cruzadas.
A cruzada, no caso, era de Bruxelas. E aqui a trilha do dinheiro fala mais alto do que qualquer editorial. A União Europeia bloqueou por anos dezenas de bilhões de euros em fundos destinados à Hungria, alegando violações ao Estado de Direito. O instrumento era o Regulamento de Condicionalidade, uma ferramenta elegantíssima que transforma repasse de verba em alavanca política, ou seja, paga quem obedece e corta o cheque de quem diverge. Há um nome para isso quando praticado por governos nacionais: se um prefeito retém verbas federais para forçar um vereador a mudar de voto, chama-se coerção institucional. Quando Bruxelas faz o mesmo com um Estado soberano, chama-se "proteção dos valores europeus". A diferença é apenas de escala e de quem assina o comunicado de imprensa. O que a Europa chamou de luta pela democracia húngara foi, em boa medida, uma disputa sobre quem controla o fluxo de recursos públicos e quem dita as condições para recebê-los.
Orbán entendeu isso desde o início, e foi exatamente esse entendimento que o tornou tão irritante para as capitais ocidentais. Ele nomeou o jogo pelo nome, recusou algumas regras, jogou sujo em casa enquanto jogava com as regras de fora, e construiu uma base eleitoral que, por quatro mandatos consecutivos, confirmou nas urnas que preferia essa versão de soberania incômoda à versão confortável de vassalagem bem-remunerada. Havia nessa preferência uma escolha política legítima, por mais que ela contrariasse o bom gosto de Berlim e Paris. O húngaro médio que votou em Orbán não era um ignorante manipulado pela máquina estatal, era alguém que avaliou as alternativas disponíveis e escolheu. Chamar isso de autoritarismo é chamar de burro o eleitor que discorda de você, o que é precisamente a operação que os defensores da democracia liberal mais praticam quando a democracia liberal produz resultados que não aprovam.
A notícia diz que os autocratas "continuam em alta" mesmo após a queda de Orbán. É verdade, e é um problema real que merece análise honesta. Mas o uso de Orbán como exemplo paradigmático de autocrata revela a confusão de base. Se o critério para classificar alguém como autocrata é usar o poder do Estado para favorecer aliados, reformar instituições a seu gosto e criar obstáculos à oposição, então a lista é infinita e inclui nomes muito mais confortáveis para a mídia progressista europeia. Se o critério é mais preciso, que é: impedir eleições, prender opositores, fechar a imprensa à força, eliminar a possibilidade real de alternância de poder, Orbán não se qualifica, e sua saída pacífica é a prova material disso. O que o caso húngaro revela não é a robustez do autoritarismo global, mas a pobreza conceitual com que o tema é tratado: qualquer governante que concentre poder demais é autocrata, qualquer concentração de poder que a Europa aprova é governança responsável. A régua mede diferente dependendo de quem está sendo medido, e isso não é análise política, é serviço de relações públicas.
O voto, instrumento que Orbán tentou torcer sem quebrar, foi o que o derrubou. Há nisso uma ironia histórica que as pessoas com pressa de proclamar vitórias deixam escapar: o mecanismo resistiu. Não por virtude das instituições húngaras sozinhas, não por benevolência de Bruxelas, mas porque o eleitorado, quando chega a um ponto de saturação, usa o que tem na mão. Isso é menos um triunfo da democracia liberal e mais uma demonstração de que o poder exercido sem lastro popular tende, no longo prazo, a erodir o próprio apoio que o sustenta. Orbán durou quinze anos porque entregou resultados que seu eleitorado valorizava. Caiu quando deixou de entregar. Essa é a lição, simples e antiga, que os entusiastas da engenharia institucional de Bruxelas preferem não tirar, porque ela sugere que o problema não era o autoritarismo em si, mas o que o povo húngaro queria, e isso, para quem acredita que o povo erra quando discorda dos especialistas, é a conclusão mais perturbadora de todas.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.