Viktor Orbán disse que o resultado foi "claro e doloroso", e essa é a única frase honesta que qualquer perdedor diria. Dezesseis anos no poder, três reeleições consecutivas, incontáveis batalhas contra a Comissão Europeia, contra a rede de organizações financiadas por filantropos cosmopolitas, contra uma imprensa que passou uma década inteira explicando para seus leitores que a Hungria era uma proto-ditadura, tudo isso para encerrar num domingo de abril com um discurso a apoiadores e uma contagem de urnas que não deixou margem para contestação. Doloroso, sim. Claro, certamente. O que ninguém vai dizer, ao menos não com clareza suficiente, é o que esse resultado representa fora das fronteiras húngaras.
A narrativa que já está sendo construída nas redações do Atlântico ao Pacífico é simples e deliciosa para quem a fabrica: o populismo autoritário perdeu, a democracia liberal venceu, o povo húngaro escolheu o lado certo da história. É o tipo de enquadramento que soa bonito e explica absolutamente nada. Orbán não era um ditador, por mais que essa palavra tenha sido jogada sobre ele como balde de lama em dia de festa. Ele venceu eleições, e venceu em contextos onde a oposição tinha acesso a recursos, imprensa e apoio externo de uma grandeza que qualquer partido de oposição no Brasil observaria com inveja genuína. O fato de ter perdido agora demonstra exatamente isso: que o sistema que o acusava de destruir as instituições democráticas funcionou para derrubá-lo. A ironia seria cômica se não fosse tão conveniente para tanta gente.
Mas convém perguntar, com a frieza que o momento exige: o que Orbán construiu de fato durante esses dezesseis anos? Construiu uma retórica soberba, um discurso de resistência nacional que ecoou da Polônia à Itália e serviu de inspiração para movimentos que se identificavam como alternativa ao consenso tecnocrático europeu. Construiu também um Estado, e aqui a questão fica menos romântica. Quando um político fica dezesseis anos no poder, seja ele qual for, a estrutura que sustenta esse poder vai se tornando gradualmente indistinguível do próprio Estado. Os aliados viram empresários protegidos, os contratos públicos circulam em órbitas previsíveis, os mecanismos de controle que foram reformados para resistir aos inimigos acabam servindo também para silenciar aliados inconvenientes. Não é teoria; é a lógica histórica de todo poder prolongado, de toda corte, de todo reinado que dura o suficiente para esquecer por que começou.
A grande ilusão do chamado "nacional-conservadorismo" europeu foi acreditar que era possível usar o aparelho estatal para resistir à dissolução cultural sem que esse mesmo aparelho, por sua natureza expansiva e insaciável, acabasse consumindo também a resistência. Orbán brigou com Bruxelas pelo controle das verbas comunitárias enquanto distribuía concessões e privilégios com a mesma generosidade que criticava nos burocratas que ele enfrentava. A diferença era o endereço dos beneficiários, não a lógica do sistema. Quem empunha o Estado como instrumento de transformação social, seja para destruir tradições ou para preservá-las, termina moldado pela ferramenta que escolheu usar. É uma lei tão velha quanto o poder político, tão verificável quanto a aritmética, e tão ignorada quanto um aviso de incêndio em prédio onde os donos moram no térreo.
Agora a Hungria vai experimentar o que vem depois. Se o novo governo for o tipo de força que conta com aprovação entusiasmada das fundações internacionais e das chancelarias ocidentais, os húngaros descobrirão em poucos anos que trocaram uma forma de clientelismo por outra, com acesso melhorado ao crédito europeu e piora proporcional na capacidade de dizer não a quem assina o cheque. Essa é a dinâmica que nenhum editorial vai descrever com essa franqueza, porque a franqueza nesse assunto incomoda exatamente os donos dos editoriais. Orbán ganhou muitos inimigos ao longo da vida por dizer em voz alta o que outros sussurravam. A derrota eleitoral não retroativamente torna suas críticas inválidas, da mesma forma que uma vitória eleitoral nunca torna uma crítica verdadeira.
O resultado é claro e doloroso, disse ele. Mas clareza e dor não são sinônimos de erro de diagnóstico. Impérios caem, presidentes perdem, líderes encerram ciclos, e o mundo segue com as mesmas perguntas sem resposta: quem controla o dinheiro, quem controla as regras e quem paga a conta quando a festa acaba. A Hungria vai descobrir. Nós observamos.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.