Na manhã desta quarta-feira, mandados batem à porta de Oruam, da mãe Márcia Nepomuceno e de um irmão, todos parentes diretos de Marcinho VP, decano do Comando Vermelho. A Polícia Civil chama de nova fase da Operação Contenção, nome que já entrega a tese: contém-se o que transborda, e o que transborda há quatro décadas é a facção que o próprio Estado fluminense pariu, criou e amamentou nos presídios federais e estaduais. O espetáculo é impecável, com câmera de TV chegando antes do delegado, e o cidadão de bem aplaude da poltrona. Pergunta proibida em rede aberta: quem paga essa novela e quem fatura?

Comecemos pelo óbvio que ninguém quer enxergar. Marcinho VP está preso desde o século passado e segue, segundo a narrativa oficial, comandando exércitos, distribuindo territórios e gerenciando logística internacional. Ou o sistema penitenciário é uma piada de mau gosto, ou Marcinho é o gestor mais produtivo do hemisfério sul operando de dentro de uma cela federal. As duas hipóteses condenam o Estado, não o salvam. Premissa maior, o monopólio da violência se justifica pela promessa de segurança. Premissa menor, o monopolista falha sistematicamente nessa entrega há gerações. Conclusão que o telejornal não fecha: o contrato social no Rio de Janeiro está rasgado, e quem rasgou foi o contratado, não o contratante.

Agora a trilha do dinheiro, que é onde o cheiro fica forte. A guerra às drogas, esse leviatã insaciável, move bilhões em orçamento de segurança pública, em verba federal de inteligência, em contratos de blindados, fuzis, munição, software de escuta, drones, helicópteros e diárias de operação especial. Cada tiroteio é uma nota de empenho. Cada operação midiática é uma justificativa de planilha. O traficante de morro vende pó, o traficante de gravata vende solução para o problema do traficante de morro, e ambos dependem da existência do outro como o pescador depende do peixe. Acabar com o Comando Vermelho seria desemprego em massa em três secretarias e queda de faturamento em meia dúzia de empreiteiras de equipamento bélico. Por isso não acaba.

Sobre o rapper, sejamos cirúrgicos. Se houver crime, que responda; propriedade ilícita não é propriedade, e enriquecimento por extensão familiar de facção é receptação travestida de cachê. Mas vamos combinar que prender o filho do chefão na semana em que o governador precisa de manchete é coincidência boa demais para ser coincidência. O calendário das grandes operações no Rio segue dois ciclos previsíveis: o ciclo eleitoral e o ciclo de desgaste do palácio. Quando a popularidade afunda, alguém famoso cai, a imprensa filma, e o eleitor médio acredita por mais seis meses que algo está sendo feito. É o velho truque do mágico, atenção desviada para a mão errada enquanto a outra esvazia o bolso do contribuinte.

Há ainda a hipocrisia cultural, que merece um parágrafo só dela. O mesmo establishment que financia edital, premia clipe e legitima a estética da boca de fumo como expressão autêntica do oprimido agora descobre, chocadíssimo, que a estética não era estética, era documentário. Glamourizou-se o crime por décadas em nome da sensibilidade social, distribuiu-se prêmio Jabuti para apologia, e quando a conta chega o intelectual de butique vira a cara e culpa o neoliberalismo. A guerra cultural não é detalhe, é a fábrica das premissas que depois viram política pública, orçamento e cadáver no asfalto.

Resta a pergunta que abriu o texto e que o jornalismo de redação climatizada jamais fará. Quem paga? O paulista que nunca pisou no Rio, o aposentado que vê imposto sumir do contracheque, o pequeno comerciante que fecha as portas mais cedo, a mãe de família que perdeu o filho em bala perdida e nunca foi indenizada por ninguém. Quem recebe? O político que ganha manchete, o burocrata que ganha diária, o fornecedor que ganha contrato, o traficante preso que segue gerindo o negócio com celular contrabandeado por agente público mal pago, e o artista que faz da tragédia roteiro de videoclipe. O rei está nu, dança funk e cobra ingresso para o próprio striptease. Resta saber até quando o público vai continuar batendo palma.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.