Existe uma categoria de notícia que aparece de tempos em tempos nos portais com aquele ar de curiosidade inofensiva, dessas que o leitor consome entre um café e uma reunião sem perceber que acabou de engolir uma pílula filosófica de primeira grandeza. A matéria sobre artefatos históricos "que parecem de gigantes" pertence a esse gênero. Pedras de centenas de toneladas encaixadas com precisão milimétrica em Baalbek, no Líbano. Os blocos de Sacsayhuamán, no Peru, tão perfeitamente ajustados que uma lâmina de barbear não passa entre eles. Os obeliscos do Egito, cortados em peça única de granito e transportados por distâncias que fariam um engenheiro logístico moderno chorar. A reação natural do homem contemporâneo é o espanto, seguido da pergunta: como fizeram isso? Mas a pergunta verdadeiramente interessante, a que ninguém faz porque a resposta é desconfortável, é outra: por que nós não fazemos nada que dure?

Observe a contradição com olhos limpos. Vivemos na era do concreto armado, do aço estrutural, do GPS milimétrico, da modelagem computacional em três dimensões, e mesmo assim nossas obras públicas trincam antes da inauguração, nossos viadutos colapsam antes de completar uma década, nossas estradas se desfazem na primeira chuva como se fossem feitas de biscoito. O templo de Karnak está de pé há mais de três mil anos. A ponte que o governo do seu estado inaugurou com faixa, palanque e discurso de campanha no ano passado já tem uma interdição parcial por "problemas estruturais". O cidadão paga, o empreiteiro recebe, o político corta a fita, e a gravidade faz o resto. Não é mistério. É aritmética. Quando o dinheiro que financia uma obra não pertence a quem a constrói, quando o risco não recai sobre quem decide, quando o lucro está na licitação e não na entrega, a qualidade é a primeira vítima. Os antigos construíam para a eternidade porque construíam com recursos próprios, com reputação própria, com pele no jogo. O Estado moderno constrói para a próxima eleição, que é o horizonte máximo de tempo que um político consegue conceber.

A fascinação popular com a teoria dos "gigantes" ou dos "alienígenas construtores" é, no fundo, um elogio involuntário à capacidade humana quando ela opera fora do alcance da burocracia. O homem livre, motivado pela glória, pela fé ou pelo simples orgulho do ofício, move montanhas, literalmente. O homem administrado, sufocado por regulações, licenças ambientais, estudos de impacto, licitações dirigidas e propinas embutidas na planilha, mal consegue tapar um buraco na calçada. Quando alguém olha para as ruínas de Persépolis e diz "isso não pode ter sido feito por humanos", está, sem saber, fazendo o mais devastador comentário possível sobre o que a máquina estatal fez com a capacidade produtiva humana. Reduziu-a a tal ponto que o resultado do trabalho livre parece sobrenatural.

Há ainda uma lição que os monumentos antigos ensinam e que o establishment intelectual moderno detesta ouvir. Essas civilizações não tinham comitês de diversidade, não tinham agências reguladoras, não tinham ministérios de planejamento com orçamentos bilionários e resultados microscópicos. Tinham mestres de obra com autoridade, aprendizes com disciplina, e um senso de propósito que dispensava memorandos internos. O conhecimento era transmitido de mestre a discípulo, não de PowerPoint em PowerPoint. A qualidade era garantida pela honra pessoal, não por um selo ISO comprado em auditoria de fachada. E o mais importante: quem construía mal arcava com as consequências. Não havia fundo garantidor, não havia socorro estatal, não havia "too big to fail" para pedreiro incompetente. O mercado, esse tribunal silencioso e implacável, julgava cada coluna, cada arco, cada junta.

Então, da próxima vez que o leitor se deparar com uma dessas matérias sobre construções colossais da Antiguidade e sentir aquele misto de admiração e perplexidade, permita-se fazer a pergunta que realmente importa. Não pergunte como os antigos conseguiram. Pergunte por que você, que paga impostos suficientes para financiar dez pirâmides por ano, recebe em troca asfalto que derrete no verão e ponte que balança no vento. A resposta não está nos céus nem nos livros de ficção científica. Está na planilha de custos de qualquer obra pública, naquela coluna que nunca aparece no relatório oficial, onde se esconde o ágio, a comissão, o "custo político". Os gigantes não eram extraterrestres. Eram homens livres. E é exatamente isso que o sistema não quer que você perceba.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.