A última febre dos banheiros brasileiros atende pelo nome pomposo de ducha italiana, que no fundo é apenas um piso inclinado com ralo linear e um vidro avulso, quando há vidro. Vendida como o cúmulo do refinamento europeu, a engenhoca consiste basicamente em abolir o degrau, abolir a porta, abolir o cubículo e, com alguma frequência, abolir também o conforto de tomar banho sem molhar o resto do banheiro. O brasileiro, sempre disposto a confundir minimalismo com modernidade, abraçou a moda com o mesmo entusiasmo com que, vinte anos atrás, abraçou a banheira de hidromassagem que hoje serve de depósito de produto de limpeza.
Convém olhar de perto antes de aplaudir. O box convencional, aquele caixote de vidro temperado que cumpria a função milenar de conter água onde a água deve ficar, custava uma fração do que custa hoje o tal projeto aberto. A ducha italiana exige impermeabilização reforçada, caimento calculado no milímetro, ralo linear importado, revestimento contínuo, vidro sob medida e mão de obra especializada que, por coincidência espantosa, cobra três vezes mais para fazer metade do serviço. Some tudo, divida pela área útil, e o leitor descobrirá que pagou o preço de um carro popular para ter o privilégio de escorregar no chão molhado às sete da manhã.
A pergunta incômoda, que nenhuma revista de decoração faz, é simples: quem ganha com essa mudança de gosto? Não é o morador, que troca uma solução barata e funcional por outra cara e problemática. É a cadeia inteira que vive de criar necessidade onde havia conveniência. Fabricante de ralo linear, importador de porcelanato de grande formato, arquiteto que cobra por hora para desenhar um chão inclinado, construtora que embute a moda no preço do metro quadrado e ainda usa o argumento como diferencial de venda. Há um nome técnico para isso: transferência de renda do tolo para o esperto, mediada pelo catálogo.
O mais cômico é o argumento estético, repetido com a solenidade de quem descobriu a pólvora. Dizem que o banheiro fica mais amplo. Fica, da mesma forma que a sala fica mais ampla se o sujeito tirar o sofá e sentar no chão. Dizem que é mais higiênico, embora qualquer pedreiro com vinte anos de ofício saiba que junta sem rejunte e canto sem quina são paraíso de mofo e dor de cabeça futura. Dizem que é tendência europeia, esquecendo que na Europa a tendência nasceu em apartamentos minúsculos onde não cabia box, e chegou aqui transformada em luxo justamente porque atravessou o Atlântico de classe executiva.
Há uma lei silenciosa que rege o consumo brasileiro de classe média e ela funciona com a precisão de um relógio suíço: tudo que vem rotulado como europeu pode ser vendido pelo triplo do preço sem que ninguém questione a utilidade. Foi assim com a cozinha gourmet, com o closet, com a área techada, com o lavabo decorado, e agora é assim com o banho sem porta. O sujeito financia em sessenta vezes a reforma que vai durar dez anos, troca um problema que não tinha por três que não imaginava, e ainda sai postando foto no domingo de manhã para que os amigos invejem o salto de status.
No fim, a moda passará, como passaram a sanca de gesso iluminada, o piso fulget e o papel de parede com listras horizontais. Restará a infiltração no apartamento de baixo, o boleto do financiamento e a certeza incômoda de que ninguém precisava daquilo. O vizinho já estará reformando de novo, dessa vez para colocar a banheira ofurô japonesa que viu no catálogo, e o ciclo recomeça. A indústria agradece, o arquiteto fatura, e o pagador da conta segue achando que liberdade é poder escolher entre duas marcas do mesmo produto inútil que alguém convenceu ele a desejar.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.