Existe um número que o Poder360 publica com solenidade de missa, e que todo mundo lê sem pestanejar: segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas no mundo convivem com algum transtorno mental. Um bilhão. O número é tão grande que deixa de ser dramático e vira abstrato, como a dívida pública, como o déficit fiscal, como tudo que o Estado produz em escala industrial e prefere que você não entenda. Porque quando um número é grande demais para ser compreendido, torna-se útil demais para ser questionado. E números úteis, neste país, têm donos.

A pandemia, claro, entrou na conta. Entrou para tudo, aliás, como entrada de mercadoria contrabandeada que ninguém fiscaliza porque o fiscal está no esquema. O isolamento gerou ansiedade, a ansiedade gerou depressão, a depressão gerou demanda por serviços, e os serviços geraram contratos, e os contratos geraram licitações, e as licitações geraram... bem, o Brasil é um país que você já conhece. Seria cômico se não fosse construído sobre o sofrimento genuíno de pessoas reais, que perderam emprego, negócio, parente, horizonte, e receberam em troca um aplicativo de mindfulness financiado pelo Ministério da Saúde e um encaminhamento para uma fila que dura dezoito meses.

O que nenhum relatório da OMS vai dizer, porque organizações supranacionais existem para produzir consenso e não verdade, é que boa parte do colapso de saúde mental nas últimas décadas é indissociável da destruição sistemática das estruturas que historicamente absorviam o sofrimento humano: a família, a religião, a comunidade, o trabalho dotado de sentido. Não é acidente que a explosão de transtornos de ansiedade e depressão coincida exatamente com o período em que o Estado foi substituindo, uma por uma, todas essas instituições por programas, benefícios e tecnocratas de jaleco. Quando você destrói o padre, o pai e a praça, não pode se espantar que a clínica psiquiátrica fique lotada. O homem é um animal que precisa de pertencimento, e pertencimento não vem em formulário do CRAS.

Siga o dinheiro, como sempre. O mercado global de saúde mental, segundo dados recentes, ultrapassa quatrocentos bilhões de dólares anuais. No Brasil, o orçamento da Rede de Atenção Psicossocial cresce ano a ano, enquanto os indicadores de bem-estar psicológico da população seguem ladeira abaixo com a constância de quem não tem pressa porque já garantiu o contrato. A indústria farmacêutica faturou fortunas com o aumento do consumo de ansiolíticos e antidepressivos no período pandêmico. Ninguém aqui nega que medicamentos salvam vidas, mas seria ingenuidade franciscana não notar que o mesmo sistema que fabrica o diagnóstico, fabrica o remédio, financia o protocolo e treina o médico que prescreve tem um interesse material considerável em que a fila nunca diminua. Impérios não se constroem sobre curas. Constroem-se sobre dependências.

A desigualdade, apontam os relatórios, é fator agravante. Correto, parcialmente. O pobre sofre mais, sem dúvida, porque à miséria material soma-se a humilhação de depender de um Estado que funciona como senhor feudal benevolente, distribuindo favores em troca de votos e gratidão perpétua. Mas a solução proposta, invariavelmente, é mais Estado, mais programa, mais verba, mais burocracia, mais especialista contratado pelo governo para mapear vulnerabilidades e elaborar relatórios que serão apresentados em seminários internacionais com passagem em classe executiva. O ciclo se fecha, o problema persiste, e a próxima conferência já está agendada. Impérios antigos entendiam que pão e circo custavam menos do que solucionar a fome. O Estado contemporâneo aprendeu a lição, atualizou o manual e adicionou um terceiro elemento: o diagnóstico.

A saúde mental importa. Isso não se discute, e qualquer posição contrária seria desonesta além de estúpida. O que se discute é se o monopólio estatal sobre a definição, o tratamento e o financiamento do sofrimento humano produziu algum resultado além de orçamentos inflados e dependência institucional. A resposta está nas estatísticas que os mesmos relatórios apresentam sem perceber a própria contradição: nunca se investiu tanto em saúde mental, nunca se falou tanto no assunto, nunca houve tantos profissionais, programas e políticas, e nunca as pessoas estiveram tão mal. Quando o remédio tem cinquenta anos de aplicação e o paciente só piora, talvez o problema não seja a dose. Talvez seja o médico. Talvez seja o diagnóstico. Talvez seja a pergunta toda que precise ser reformulada, começando por admitir que certas coisas o Estado não sabe fazer, nunca soube, e o fato de nunca ter resolvido não o impediu de nunca parar de cobrar para tentar.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.