Pompeia foi soterrada pelo Vesúvio no ano 79 da era cristã e, dezoito séculos depois, quando os arqueólogos foram retirar a cinza, encontraram jardins. Não monumentos públicos, não praças batizadas com nome de general, não parques custeados pelo erário com placa de dedicatória. Encontraram jardins privados, escondidos atrás dos muros das casas particulares, cultivados com recursos do dono, segundo o gosto do dono, para o prazer do dono e de quem ele convidasse a entrar. O hortus romano era, antes de qualquer coisa, uma expressão da soberania do indivíduo sobre o espaço que lhe pertencia. Essa distinção, que parece óbvia quando enunciada, é hoje uma raridade tão exótica quanto a própria língua latina.
O jardim romano funcionava como extensão viva da arquitetura doméstica. O peristilo, aquele pátio colunado que organizava o coração da domus, era o eixo ao redor do qual a vida familiar gravitava, e o jardim ali plantado não era enfeite, era argumento. Argumento sobre a capacidade do homem de ordenar a natureza segundo sua razão, de impor forma ao caos vegetal, de transformar terra em beleza deliberada. Quem chegava à casa de um cidadão romano bem-sucedido e avistava aquele espaço verde, sombreado, com estátuas e fontes e flores sazonalmente trocadas, estava lendo uma declaração de caráter. O jardim dizia: este homem tem recursos, tem gosto, tem a paz interior necessária para cultivar o belo sem urgência. Era, nas palavras que os próprios romanos usariam, a virtus feita paisagem.
Havia também uma dimensão econômica que os romantizadores de plantão costumam varrer para debaixo do tapete: muitos desses jardins produziam. Ervas medicinais, temperos, frutas, flores para o mercado. O romano não tinha vergonha de lucrar com o próprio jardim. Columela escreveu tratados inteiros sobre como tirar rendimento da terra doméstica sem sacrificar a elegância do espaço. A beleza e a utilidade não eram conceitos concorrentes, eram faces da mesma moeda. Essa síntese, que qualquer camponês com juízo natural compreendia sem precisar de pós-graduação, é precisamente o que o pensamento moderno, com sua mania de opor o funcional ao estético e o privado ao coletivo, sistematicamente destruiu. Hoje o Brasil debate se uma horta comunitária precisa de CNPJ.
O que sustentava aqueles jardins não era subvenção. Era riqueza privada gerada por comércio, por propriedade fundiária, por trabalho intelectual, por herança administrada com competência. O romano que plantava rosas no peristilo e contratava um escravo especializado em jardinagem, o topiarius, estava exercendo livremente o direito de aplicar seus recursos conforme sua hierarquia de valores. O Estado romano tinha seus vícios monstruosos, e não são poucos, mas não havia ainda inventado o imposto de renda progressivo, a taxa sobre grandes fortunas, o IPTU majorado para imóveis acima de determinado metro quadrado, o alvará obrigatório para construção de muro com altura superior a um metro e oitenta. O confisco institucionalizado, disfarçado de política redistributiva, é uma invenção moderna. E seu efeito, observável a olho nu em qualquer cidade brasileira, é a substituição dos jardins privados por fachadas de concreto descascado e grades de ferro.
Há uma ironia cruel no fato de que as cidades que mais tributam seus cidadãos são precisamente as mais feias. Não é coincidência, é causalidade. Quando o poder público retira do indivíduo a riqueza excedente, retira junto a capacidade de cultivar o supérfluo necessário, que é exatamente aquilo que diferencia uma civilização de um acampamento. O jardim é supérfluo no sentido de que ninguém morre sem ele. E é necessário no sentido de que sem ele, sem a música, sem a pintura, sem a arquitetura que não se justifica apenas pela função, o homem começa a morrer de outro jeito, mais lento, mais sorrateiro, mais difícil de nomear. Os romanos sabiam disso. Plantavam para não esquecer que eram mais que animais de trabalho.
Quando visitar as ruínas de Pompeia ou de Herculano e deparar com aqueles espaços que o tempo preservou melhor do que nós merecemos, não pense apenas em beleza arqueológica. Pense no que foi preciso para construir aquilo: propriedade inviolável, riqueza acumulada livremente, gosto individual não submetido a nenhuma comissão de aprovação municipal, e um Estado que, apesar de todos os seus defeitos imperiais, ainda não havia se metido entre o cidadão e o próprio quintal. Pense nisso, e depois olhe pela janela.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.