O fato é prosaico e por isso mesmo eloquente. Islam Slimani, Abdelmoumene Djabou e Salah Assad dividem, cada um com seus poucos gols, o topo do ranking de artilheiros da seleção argelina em Copas do Mundo. Não há um goleador isolado, não há um ídolo único capaz de ocupar sozinho a vitrine. Há um trio empatado, separados por décadas, unidos pela escassez. E é justamente nessa escassez que mora a notícia que ninguém quis dar.

Reparem na engenharia financeira do espetáculo. A Fifa fatura bilhões a cada ciclo, vende cotas de transmissão como quem vende indulgência medieval, cobra das federações nacionais taxas de filiação, impõe calendários, dita patrocinadores oficiais, define qual cerveja se bebe nos estádios e qual refrigerante aparece na coletiva. Tudo isso para produzir, ao fim, um espetáculo cuja matéria-prima continua sendo o pé de um sujeito chutando uma bola. E esse pé, teimoso, recusa-se a ser comprado por atacado. Slimani jogou em clubes ricos da Europa, Djabou e Assad pertencem a outras eras, e mesmo assim os três se igualam num número modesto que nenhum cartola consegue inflar por decreto.

Há uma lógica simples aqui, daquelas que o bom senso captura antes do economista. Se a premissa é que dinheiro compra resultado esportivo de forma linear, e se a Argélia recebe, como toda federação, repasses, premiações e estruturas montadas pela própria Fifa, então a conclusão deveria ser uma fila de artilheiros consagrados. Não é. A conclusão real é um empate triplo num número de gols que qualquer atacante razoável de clube europeu faz num mês de campeonato nacional. O silogismo quebra na cara de quem vende a narrativa, porque o futebol de seleção, ao contrário do futebol de clube, não se compra na prateleira.

E aqui mora o detalhe saboroso. As Copas africanas de seleções, as confederações, os comitês olímpicos, todo esse cipoal burocrático cobra, taxa, regulamenta, exige licenciamento, padroniza uniforme, fiscaliza chuteira. Quem paga essa engrenagem? O torcedor, no preço do ingresso, na assinatura do canal, no imposto que custeia o estádio público usado para evento privado. Quem recebe? A casta de dirigentes que vive de viagens executivas, hospedagem cinco estrelas e diárias em moeda forte enquanto o garoto argelino que sonha em ser Slimani treina em campo de terra batida. O empate dos três artilheiros é, no fundo, o retrato mudo dessa desproporção. Muito dinheiro circulando em cima, pouquíssimo gol acontecendo embaixo.

O leitor desavisado talvez ache que isto é apenas uma curiosidade estatística, dessas que rendem post de fim de semana. Engano. Toda vez que uma seleção pequena exibe um panteão minúsculo, está revelando o tamanho real do funil que a estrutura oficial do esporte impõe aos países periféricos. Disputar Copa custa caro, classificar custa mais caro ainda, e manter geração competitiva exige uma indústria que a maior parte das federações não tem porque o dinheiro arrecadado evapora em consultoria, comitiva e contrato opaco antes de chegar à base. Três artilheiros empatados num número pequeno é menos sobre talento argelino e mais sobre quanto da arrecadação global sobra, de fato, para formar atacante.

Resta a piada que se conta sozinha. O torneio mais rico do planeta, vendido como meritocracia pura, produz para metade do mundo carreiras tão curtas em Copa que três jogadores diferentes terminam empatados no topo de uma seleção inteira. Quem paga continua sendo o mesmo de sempre, o sujeito comum que liga a televisão. Quem recebe também, a casta que administra a bola sem nunca ter chutado uma. A bola, coitada, segue rolando, alheia ao contrato de patrocínio, e às vezes, raramente, entra. Quando entra, vira estatística. Quando não entra, vira empate histórico de três nomes que mereciam mais palco e tiveram menos do que o marketing prometia.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.