O fato é seco, frio, e dói nos nostálgicos como sal em ferida aberta. No Catar, num inverno improvável bancado por petrodólares e estádios refrigerados a ar condicionado, o baixinho de Rosário passou por cima da estátua de bronze que Gabriel Batistuta havia construído nas Copas do Mundo e se isolou, definitivo, como maior goleador da seleção albiceleste em mundiais. Não foi gol de placa, não foi épico de cinema. Foi cumprimento de cronograma. O homem chegou, fez o que tinha que fazer, e seguiu adiante. A história, essa senhora cruel, não pergunta se você gostava mais do estilo do antecessor.
Aqui mora a primeira ironia que os romântico de boteco se recusam a engolir. Por anos repetiram o mantra de que Messi não rendia com a camisa da seleção, que era produto de laboratório catalão, que sem Xavi e Iniesta não passava de coadjuvante de luxo. Repetiram tanto que acreditaram, e quando o sujeito virou artilheiro histórico, campeão da América, campeão do mundo, restou o silêncio constrangido de quem apostou tudo no cavalo errado e agora finge que estava torcendo pelo vencedor desde o começo. As coisas são o que são, não o que a torcida adversária gostaria que fossem.
E aí entra a aritmética simples, que ninguém ensina na escola porque é perigosa demais. Batistuta deixou a marca em dez gols espalhados por três mundiais, era o tipo de centroavante que parecia esculpido para a função, juba ao vento, chute de canhão e cara de quem ia à guerra. Messi foi acumulando em silêncio, mundial após mundial, sem o glamour do matador clássico, mais parecido com um contador metódico fechando o balanço do que com um gladiador. No fim, o contador venceu o gladiador, e isso diz mais sobre o futebol moderno do que qualquer crônica saudosista admitiria em sã consciência.
Convém lembrar quem lucra com a transformação do jogador em monumento. Não é o garoto que paga ingresso, não é o pai que compra a camisa pirata na feira, não é o aposentado que assiste pela televisão alugada por assinatura. Quem fatura são as federações que vendem direitos a peso de ouro, os patrocinadores que estampam logomarcas em cada quadradinho de tecido disponível, as casas de aposta que transformaram cada lance em mercado futuro e os caciques de gravata que enriquecem enquanto o operário argentino batalha para juntar pesos suficientes para entrar no estádio. A glória pertence ao homem, o dinheiro pertence aos cartórios do esporte. Sempre foi assim, do circo romano às arenas árabes climatizadas.
Há também a lição cultural, que os brasileiros teimam em não aprender. A Argentina fabrica ídolos com uma seriedade religiosa que beira o fanatismo, e por isso colhe geração após geração de jogadores que carregam o peso da camisa sem reclamar do salário. Aqui do lado de cá, trocamos heróis por figurinhas de redes sociais, trocamos memória por viralização e nos espantamos quando o vizinho aparece com troféu na mão e estatística atualizada. O consenso preguiçoso diz que somos o país do futebol. Os números, esses traidores impiedosos, dizem outra coisa. Quando todo mundo concorda com uma narrativa, é hora de desconfiar dela.
No fim das contas, sobra o que sempre sobra. O baixinho fez gol, virou estatística, virou capítulo de livro que ainda nem foi escrito. A torcida hermana grita, os patrocinadores faturam, os dirigentes brindam com champanhe importado e a conta da festa, como sempre, é dividida entre os contribuintes argentinos via impostos sobre cada peso que entra e sai do bolso do trabalhador. Quem paga é o de sempre. Quem recebe é o de sempre. A única novidade é o nome no topo da tabela de artilheiros, e nem isso, convenhamos, é assim tão novidade. Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.