O brasileiro de 2026 não compra mais SUV usado porque ama dirigir alto. Compra porque descobriu, no susto, que o carro de segunda mão com câmbio automático virou uma das poucas reservas de valor disponíveis ao plebeu sem acesso a dólar, sem coragem para cripto e sem paciência para tesouro direto. O ranking dos modelos mais procurados, com seus Compass, Tracker, Creta, Kicks e companhia, é apresentado pela imprensa especializada como retrato do gosto do consumidor. É retrato, sim, mas de outra coisa: do tamanho do estrago monetário que transformou lata velha em ativo financeiro.
Pergunte ao motorista médio por que ele evita o zero quilômetro e a resposta vem mastigada. O carro novo saiu do alcance. Não porque a montadora ficou gananciosa do dia para a noite, mas porque cada unidade que rola da linha de produção carrega nas costas IPI, ICMS, PIS, Cofins, frete encarecido por combustível tributado, juros bancários inflados pela festa fiscal de Brasília e, no topo do bolo, a corrosão silenciosa de uma moeda que perde poder de compra enquanto o ministro sorri no telejornal. O seminovo, esse coitado, já pagou os pedágios. Por isso parece barato. Não está barato. Está apenas menos roubado.
O fenômeno tem lógica de manual antigo. Quando o governo manipula a base monetária, distorce juros e torna o crédito uma roleta, o cidadão foge para bens reais. Foi assim na Alemanha de Weimar com sacos de batata, foi assim na Argentina dos anos noventa com tijolo, é assim aqui com Compass automático ano 2022. O SUV usado cumpre hoje a função que a caderneta de poupança cumpria quando seu avô confiava no carnê. Liquidez razoável, depreciação previsível, demanda firme, e a sensação reconfortante de que, se o sistema bancário pegar fogo na sexta, na segunda você ainda tem quatro rodas para vender no grupo do WhatsApp.
A indústria, claro, não é vítima inocente. Décadas de protecionismo, regime automotivo, Inovar Auto, Rota 2030 e outras fantasias siglárias entregaram ao consumidor brasileiro o pior dos mundos: carro caro, atrasado tecnologicamente e amarrado a um parque fabril que só sobrevive com o cidadão pagando a conta via tributo e tarifa de importação. Quem recebe? Montadora instalada no ABC, sindicato afiliado, deputado da bancada da indústria, banco que financia a sessenta meses. Quem paga? O sujeito que precisa do carro para trabalhar e descobre que o automático nacional custa o preço de um imóvel em cidade do interior.
O detalhe saboroso é o câmbio automático virar critério de busca quase universal. Vendido como conforto, é na verdade rendição. O trânsito das capitais, engessado por décadas de planejamento urbano feito por gente que nunca pegou ônibus, transformou a embreagem em instrumento de tortura. Ninguém escolhe automático porque quer. Escolhe porque o Estado, ao entupir as cidades, ao taxar o combustível, ao sabotar o transporte público com licitações viciadas, criou o inferno cotidiano que torna o pedal esquerdo insuportável. Há sempre alguém faturando com o desconforto do próximo, e nesse caso é a montadora que cobra dez, quinze mil reais a mais pela transmissão que, lá fora, é item de série em carro popular.
Então, quando ler a próxima reportagem celebrando os SUVs usados que dominam o mercado em 2026, traduza. Não é triunfo do consumidor esperto. É atestado de óbito de uma classe média empurrada para o mercado de segunda mão porque o primeiro foi sequestrado por impostos, juros e inflação. O ranking dos mais vendidos é, na verdade, o ranking dos refúgios possíveis. E refúgio, por definição, só existe quando há guerra. A guerra, nesse caso, é a de sempre: do governo contra o seu bolso.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.