Morreu o homem que fez mais pelo Brasil atirando de sete metros do que três gerações de ministros do esporte somadas. Oscar Schmidt, 49.737 pontos, nenhuma medalha olímpica e uma biografia que envergonha qualquer discurso de 7 de setembro, pediu para ser cremado com a camisa amarela da seleção. Foi. Na noite de sexta-feira, reservada aos seus, o Mão Santa virou cinzas abraçado ao único uniforme que, no Brasil contemporâneo, ainda consegue ser vestido sem gerar suspeita imediata de contrato de patrocínio, comissão de frente ou cargo em ministério recém-criado.

Pense na cena pelo que ela é, e não pelo que a crônica lacrimosa vai transformá-la amanhã. Um sujeito que passou a vida profissional na Itália, ganhando em liras e depois em euros, recusou três propostas da NBA porque queria continuar defendendo a seleção brasileira num esporte que no Brasil nunca teve lobby de verba pública, nunca teve secretaria nacional dedicada, nunca teve subvenção generosa do BNDES e nunca rendeu palanque eleitoral. Ou seja, fez pátria justamente onde a pátria oficial não estava olhando, porque não havia dinheiro fácil a extrair dali. É uma definição melhor de amor ao país do que qualquer monografia sobre identidade nacional escrita com bolsa de pesquisa.

Siga o dinheiro e o retrato fica ainda mais revelador. O basquete que formou o camisa 14 não era o basquete das arenas bilionárias subsidiadas; era ginásio de clube, quadra de cimento, patrocínio privado magro, federação pobre. Enquanto isso, o futebol virava política industrial, a CBF virava principado hereditário, o Comitê Olímpico engordava com repasses públicos e os cartolas trocavam de Rolex a cada ciclo. Oscar viveu exatamente do outro lado dessa equação. Saiu do Brasil para sobreviver como atleta e, ainda assim, voltava sempre que a bandeira precisava, sem cachê, sem foro, sem cota parlamentar. O contraste entre quem deu e quem recebeu durante essas décadas é constrangedor, e é por isso que hoje o velório vira súbita unanimidade: é mais fácil homenagear o morto do que explicar por que o vivo teve que se virar sozinho.

Há uma lógica simples que a retórica oficial detesta. Se o sujeito dedicou a vida à seleção sem receber um centavo a mais por isso, então ele amava a seleção. Se os que vivem da seleção brasileira de outro esporte acumulam mansão em Miami, cargo vitalício e inquérito arquivado, então eles amam outra coisa. As coisas são aquilo que são. O gesto de ser cremado com a camisa amarela é um silogismo em forma de mortalha: devolve à bandeira o conteúdo que o marketing institucional tentou esvaziar, e faz isso sem slogan, sem cerimônia pública, sem holofote. Honra verdadeira não precisa de press release. Quando precisa, já virou outra coisa.

Num país que gasta fortunas fabricando heróis de plástico, personagens de campanha, ícones de hashtag com prazo de validade até a próxima eleição, perder alguém que não devia nada a ninguém é um soco no estômago do teatro nacional. Oscar não foi produto de política pública, não foi forjado por programa de incentivo, não foi financiado com renúncia fiscal disfarçada de mecenato. Foi moleque de Natal que cresceu em Brasília, treinou até a mão calejar, cruzou o Atlântico para jogar por dinheiro privado e voltava de graça quando o hino tocava. Isso se chama grandeza, e grandeza, ao contrário do que dizem os manuais de autoajuda cívica, não se decreta por lei, não se distribui por edital e não se inaugura com corte de fita.

Fica, então, a pergunta incômoda que a semana inteira de homenagens vai tentar abafar com violinos. Se o melhor brasileiro de uma geração inteira num esporte sério pediu para ir embora abraçado à camisa amarela, exatamente num momento em que a mesma camisa foi rebaixada a mascote de briga ideológica, talvez o problema não seja a camisa. Talvez o problema seja a distância sideral entre o que o tecido representa na mortalha do camisa 14 e o que ele virou nos crachás funcionais da República. Quem paga, paga sempre: é o contribuinte, é o torcedor, é o cidadão comum. Quem recebe, varia. Ontem recebeu um homem que devolveu tudo em arremessos. Hoje, recebem outros, em contratos. Descanse em paz, gigante. O país que o senhor amou de graça continua caro demais para quem só tem uma camisa.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.