Oscar Schmidt, o maior cestinha que esta terra já produziu, deu entrada nesta sexta-feira no Hospital Municipal Santa Ana, em São Paulo, depois de um mal-estar súbito. A assessoria confirmou a internação, a família pediu discrição ao corpo clínico, e a notícia, como era de se esperar, vazou antes do soro. Em questão de minutos, o nome do ídolo virava manchete em portais que nunca acompanharam uma cesta de três sua na vida, mas que agora se descobriam íntimos do paciente, solidários da família, porta-vozes de um drama que ninguém os autorizou a narrar.

Reparem no pedido singelo e revelador: discrição. Uma palavra de sete letras que custou quase dois milênios de civilização para se consolidar como direito, e que a redação média brasileira atropela em menos de sete minutos. A família não pediu nota oficial, não pediu boletim médico a cada seis horas, não pediu live no Instagram com o plantonista. Pediu silêncio. E o silêncio, neste país, é o único bem que o jornalismo de celebridade recusa a entregar, porque é justamente do barulho alheio que ele come.

Há uma economia muito nítida aqui, embora mal iluminada. Cada aparição do nome de Oscar num portal gera tráfego, tráfego gera impressão de anúncio, impressão de anúncio gera centavos que somados viram milhões. Quem paga essa conta? O leitor, com sua atenção extorquida, e a família, com sua dor privatizada e depois terceirizada para o entretenimento nacional. Quem recebe? As empresas que fazem do infortúnio matéria-prima e dos ídolos estoque de luto antecipado. É um modelo de negócio que ficaria indecente se alguém tivesse coragem de explicá-lo por escrito, razão pela qual ninguém explica.

Reparem também no endereço da internação: hospital municipal. O homem que encheu ginásios no mundo inteiro, que recusou a NBA para defender uma camisa que o Estado brasileiro nunca soube agradecer, foi parar numa unidade da mesma rede que engole bilhões em impostos e devolve fila, precariedade e cartaz de ministro inaugurando tomografia. Não se trata de detalhe pitoresco. Trata se de radiografia do país: o ícone nacional entra pela mesma porta que o cidadão anônimo, porque o sistema privado que alguns demonizam é justamente aquele que permitiria escolha, e o sistema público que se sacraliza nos discursos é aquele que, na prática, todos tentamos contornar quando dá.

Há ainda o detalhe semântico que diz tudo sobre nossa época. Nos chamam a consumir a internação como se fosse episódio de novela, com trilha sonora de suspense e convite à especulação. Foi avc? Foi cardíaco? Foi cansaço? A pergunta correta, a única que honra um homem que passou a vida entregando resultado dentro de quadra, é outra: por que um cidadão adulto, com família, médicos e assessoria, não tem direito a adoecer sem que meio país pretenda opinar sobre seu pâncreas? A resposta é que o direito existe, escrito e tudo. O que não existe mais é a vergonha de violá lo.

Que o Mão Santa se recupere rápido, que volte aos ginásios a convite, que continue a nos lembrar do tempo em que nossos heróis jogavam bola em vez de gravar reels. E que a imprensa, por um dia apenas, tente a experiência rara de obedecer a um pedido simples. Discrição. Sete letras. A família escreveu. Basta ler.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.