Morreu Oscar Schmidt nesta sexta-feira, aos setenta e um anos, e a indústria da emoção já liga as turbinas do choro coletivo. Em vinte e quatro horas teremos o pacote completo: retrospectiva das cestas históricas, homenagens de jogador que mal sabe quem ele foi, ministros pendurados no caixão buscando foto. Nessa operação de embalsamamento sentimental, um detalhe vai ser varrido para debaixo do tapete com a eficiência de zelador experiente: o homem tentou Senado em 1998 e foi secretário municipal de Esportes na São Paulo do Celso Pitta, apadrinhado daquele senhor que o leitor sabe quem é. Não é detalhe biográfico menor. É confissão de como funciona a engrenagem.

Pergunte a si mesmo por que toda celebridade, do Romário ao Tiririca, do Popó ao cestinha, acaba convocada pela máquina. Não é porque o partido descobriu vocação para o serviço público nesses sujeitos. É porque voto de urna se compra com rosto conhecido, e rosto conhecido é mais barato que convencer eleitor na argumentação. A secretaria de esportes de uma cidade como São Paulo move orçamento de centenas de milhões, contratos com empreiteiras de quadra, convênios com federações, patrocínios cruzados. O atleta vai para a vitrine, sorri na inauguração, corta fita. Atrás da cortina, o contador do cacique faz o serviço de sempre. Follow the money e você entende o casamento: o ídolo empresta o brilho, o operador colhe o troco.

Monte o silogismo na lousa e o resultado é cruel. Premissa maior: saber fazer cesta não implica saber legislar, administrar orçamento público ou resistir a lobby. Premissa menor: Oscar sabia fazer cesta. Conclusão: Oscar não tinha qualquer razão técnica para ocupar cadeira no Senado ou cadeira executiva. E no entanto a máquina o convocou, e uma parcela do eleitorado assinou embaixo. Por quê? Porque o eleitor médio não vota em projeto, vota em afeto. Vota em quem lembra do gol, do arremesso, da novela. E a classe política, que de boba não tem um fio de cabelo, sabe disso há séculos. Gladiador virou senador em Roma muito antes de existir televisão. O truque é velho, a plateia é que troca de figurino.

Há uma hipocrisia central no discurso que diz "precisamos de gente honesta na política, gente que veio de fora". Veja bem a sutileza do engodo. A premissa embutida é que o problema são as pessoas, não o sistema. Bastaria trocar os ocupantes e a máquina começaria a produzir bondade. Ocorre que a máquina é desenhada para transformar o que entra. Não importa se entra atleta, padre, médico ou sindicalista: sai da linha de montagem a mesma peça, com pequenas variações de tom. Quem conhece os incentivos entende. Dinheiro arrecadado de terceiros, gasto em benefício próprio, com pouca prestação de contas e zero consequência pessoal, produz um tipo específico de comportamento. O sistema não é corrompido por acidente, é corruptor por desenho.

Oscar teve a sorte, dentro do azar, de perder a eleição de 1998. Poupou-se de uma década de fotos constrangedoras votando em pauta que não entendia, defendendo acordo que não lera, recebendo verba de gabinete que não precisava. Voltou para a quadra, para os livros de memórias, para a condição de ídolo inofensivo que o país o perdoa por ser. Outros que trilharam o mesmo caminho não tiveram o mesmo bom senso e hoje envergonham a própria biografia com a pertinácia do pombo em estátua. O esporte, ao menos, tem adversário claro, regra escrita, árbitro visível e cronômetro que não perdoa. A política brasileira, aprende o ingênuo tarde demais, é exatamente o oposto: não há adversário definido, a regra muda com o vento, o árbitro está comprado e o cronômetro dura o mandato do seu financiador.

Fica a lição que ninguém vai tirar do velório. O populismo esportivo não é acidente de percurso, é método. Sempre que um ídolo é alçado ao palanque por sigla X ou Y, pergunte pela enésima vez a única pergunta que importa: quem paga e quem recebe? Paga o contribuinte, que banca salário, gabinete, assessoria, jetom, auxílio moradia e aposentadoria vitalícia. Recebe o cacique que alugou o rosto, a família do cacique, o operador do cacique, a construtora amiga do cacique. O ídolo, esse, recebe migalha simbólica e desce a escada ainda acreditando que prestou serviço ao país. Oscar prestou serviço ao país nas quadras, onde era gigante de verdade. Fora delas, foi só mais um nome útil à engrenagem que nunca para de moer. Descanse em paz o atleta. Do resto, que se aprenda alguma coisa, o que talvez seja pedir demais.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.