Um padre católico de 45 anos foi sequestrado na noite de domingo em Barueri, interior de São Paulo. Levaram dele o que puderam levar, como fazem os ladrões que não têm toga nem mandato. O padre José Eduardo de Oliveira e Silva, para quem não se recorda, é o mesmo sacerdote que o ministro Alexandre de Moraes decidiu arrolar no inquérito do suposto golpe, transformando um religioso em suspeito de subversão. Há algo de profundamente revelador quando o mesmo homem que o Estado trata como ameaça à democracia é tratado pelo crime comum como presa fácil. O poder público, que deveria garantir a segurança do cidadão, está ocupado demais fabricando inimigos políticos para se preocupar com bandidos de verdade.
Reparem na mecânica perversa do arranjo. O aparelho de segurança do Estado brasileiro, que dispõe de orçamento bilionário, polícias federais, estaduais, civis, militares, guardas municipais, sistemas de inteligência e um sem-número de siglas que ninguém consegue decorar, não consegue evitar que um cidadão seja abordado, sequestrado e roubado num domingo à noite numa cidade da Grande São Paulo. Mas esse mesmo aparelho consegue, com eficiência invejável, intimar padres, bloquear contas bancárias de caminhoneiros, censurar perfis em redes sociais e montar dossiês sobre gente que reza o terço em praça pública. A máquina funciona perfeitamente; só que funciona para fins que nada têm a ver com proteger quem paga a conta.
E quem paga a conta? O contribuinte, sempre ele, esse animal de carga silencioso que financia simultaneamente a própria opressão e a própria desprotecção. O dinheiro do IRPF do padre José Eduardo, antes de lhe ser confiscado na fonte como de todo assalariado, ajudou a bancar o inquérito que o investiga, o salário do ministro que o persegue, o sistema judiciário que o trata como conspirador e, por ironia final, a polícia que não estava lá para impedir seu sequestro. O sujeito paga para ser perseguido e paga para não ser protegido. Se um roteirista de Hollywood escrevesse isso, o produtor devolveria o script por inverossimilhança.
A história, para quem se dá ao trabalho de lê-la, está cheia de episódios em que o poder constituído escolheu seus alvos não pela ameaça real que representavam, mas pela conveniência política de neutralizá-los. Padres sempre foram alvos prediletos de regimes que não toleram autoridade moral concorrente. Na França revolucionária, guilhotinaram clérigos não porque empunhassem armas, mas porque empunhavam algo mais perigoso: uma visão de mundo que não dependia do Estado para se sustentar. No México de Calles, fuzilaram cristeros pelo mesmo motivo. O método muda, a lógica permanece. No Brasil de 2026, não se fuzila nem se guilhotina; arrola-se em inquérito, intima-se, constrange-se, e deixa-se o resto do trabalho para o ambiente de insegurança que o próprio Estado cultivou com esmero.
O sequestro do padre José Eduardo não é um fato isolado de violência urbana. É o retrato acabado de um sistema que inverteu suas prioridades com uma coerência que, se não fosse trágica, seria admirável. O monopólio da força, que é a única justificativa teórica para a existência do Estado, foi redirecionado. Não aponta para o criminoso que ronda as ruas de Barueri à noite; aponta para o cidadão que ousa discordar, para o religioso que fala o que pensa, para o contribuinte que pergunta demais. Quando o Estado escolhe seus inimigos pelo critério da opinião e não pelo critério do crime, o crime prospera, porque o criminoso de verdade sabe que a polícia está olhando para o lado errado. O bandido que sequestrou o padre não precisou de nenhuma sofisticação; bastou-lhe a certeza estatística de que o aparato repressivo estava ocupado com assuntos mais importantes, como investigar sermões.
Perguntem-se, ao final, quem lucra com esse arranjo. Não é o padre, que foi roubado duas vezes, pelo fisco e pelo ladrão. Não é o cidadão comum, que vive a mesma loteria da insegurança. Lucra quem detém o poder de definir o que é crime e o que é democracia, quem escolhe a dedo os perseguidos e os protegidos, quem transforma a Justiça em instrumento de controle político enquanto a injustiça comum corre solta pelas ruas. O rei está nu, e o padre que ousou apontar isso foi sequestrado num domingo à noite. Coincidência, dirão. Claro. No Brasil, tudo é sempre coincidência.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.