O ex governador de Minas resolveu, num gesto de magnanimidade calculada, declarar virada a página da briga com o senador filho do ex presidente. Motivo do azedume original: o mineiro foi flagrado em conversações com o dono do banco que acabou de implodir, exigindo do governo federal um colete salva vidas custeado por quem nunca pisou no salão nobre da instituição. O senador esbravejou, o ex governador recuou, e agora ambos posam para a foto de reconciliação como se o episódio tivesse sido apenas um mal entendido de etiqueta, e não a fotografia nítida de como funciona a engrenagem.

Convém olhar a cena com a frieza de quem desmonta um relógio. Um político que se vendeu durante anos como avesso ao gigantismo estatal, paladino do enxugamento, aparece numa mesa com um banqueiro cujo plano B, quando o lucro privado virou prejuízo privado, foi exatamente correr atrás do guichê público. A coerência ideológica evapora no instante em que a oportunidade de capital político e financeiro bate na porta. O que sobra é o velho ritual: privatizar ganhos enquanto há festa, socializar perdas quando o salão pega fogo, e contar com algum operador disposto a costurar o resgate em troca de gratidão futura.

A briga com o senador, portanto, jamais foi sobre princípios. Foi disputa territorial entre dois caciques que precisam um do outro para 2026 e descobriram, no calor do flagra, que o atrito custaria votos a ambos. Daí a página virada, expressão deliciosamente reveladora: páginas se viram quando o que estava escrito incomoda quem precisa seguir vendendo o livro. Ninguém vira página de um capítulo que lhe dá lucro. Vira se da denúncia, do constrangimento, da pergunta inconveniente sobre quem ia pagar a conta do banco se o socorro tivesse vindo.

E essa é a pergunta que ninguém formula em rede nacional, porque formulá la quebra o encanto. Quem paga? O sujeito que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, e tem trinta por cento do salário evaporado em tributos antes mesmo de comprar o pão. Quem recebe? O banqueiro que apostou alto, errou feio, e exige que o erário cubra a aposta com a naturalidade de quem pede mais um café. O político de plantão, qualquer que seja a sigla, entra como intermediário da transação, cobrando comissão em forma de prestígio, doações de campanha e portas abertas para quando deixar o cargo. O contribuinte é o único que não tem assento na mesa, embora seja o único que de fato banca a refeição.

Há uma analogia útil nos antigos arrendatários de impostos do absolutismo francês, aqueles fermiers généraux que compravam do rei o direito de extorquir os camponeses e ficavam com a diferença. O método mudou de roupa, ganhou marketing, aprendeu a falar em inclusão e desenvolvimento, mas a estrutura permanece intacta: alguém detém o monopólio legal da coerção, alguém compra acesso a esse monopólio, e a massa anônima é ordenhada para sustentar o arranjo. Quando os arrendatários brigam entre si, o povo se anima como se assistisse a um campeonato, sem perceber que o ingresso da arquibancada já foi descontado em folha.

Que respeite a família que bem entender, é assunto particular dele. O que não se pode é confundir essa coreografia palaciana com vida pública séria. Página virada é eufemismo para conta paga por outro. Enquanto o eleitor aplaudir reconciliações de bastidor como se fossem gestos de grandeza, continuará desempenhando, com entusiasmo cívico, o único papel que lhe reservaram no roteiro: o de pagador silencioso de uma festa para a qual nunca foi convidado.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.