A presidente nacional do Podemos subiu ao palanke virtual e proclamou, com ar de quem descobriu a pólvora, que o partido lançará Marco Antonio Palumbo e Marcos Rufino ao Senado por São Paulo, sendo que apenas um dos dois sobreviverá ao corte. É a velha cena do leilão fantasiada de prévia: dois cavalos no páreo, o cocheiro decide depois qual rende mais aposta, e o eleitor paulista é informado, com todas as letras, de que sua representação no Senado será definida pela aritmética interna de uma sigla cujo programa cabe num post de Instagram. Antes de discutir nomes, convém perguntar o óbvio que ninguém pergunta: quem paga essa brincadeira toda? O contribuinte, claro, via fundo eleitoral e fundo partidário, dois nomes pomposos para o mesmo fenômeno, que é a transferência compulsória de dinheiro do trabalhador para a manutenção de cartórios eleitorais que ele jamais frequentaria de livre vontade.
O Podemos é, há anos, o exemplo de manual daquilo que poderíamos chamar de capitalismo de tempo de antena: uma estrutura que existe não para defender uma ideia, mas para alugar legendas, distribuir candidaturas e cobrar pedágio nas trocas de filiação. Renata Abreu, herdeira política de um patrimônio partidário construído nas curvas do antigo PTN, anuncia agora que apoiará Tarcísio de Freitas com a naturalidade de quem confirma o cardápio do almoço. Não há, em momento algum, qualquer menção a princípio, plataforma ou compromisso programático. Há cálculo. Há posicionamento. Há, sobretudo, a leitura precisa de para onde sopra o vento eleitoral em 2026, e o vento, neste momento, sopra do Palácio dos Bandeirantes para o Planalto.
Observem a coreografia, porque ela é didática. Palumbo é deputado estadual, médico, figura de eleitorado próprio e bolso conhecido. Rufino, secretário de governo de Tarcísio, é o nome que carrega a chancela direta do executivo paulista, ou seja, a senha de acesso à máquina, aos secretariados, aos contratos, aos apoios municipais costurados a fio de aço. Lançar os dois e prometer escolher depois é simplesmente abrir a temporada de caça às doações, aos cabos eleitorais e às promessas cruzadas. O que estiver mais bem pago em julho de 2026 segue. O outro vira vice de algo, presidência de comissão ou cargo no segundo escalão. Tudo é negociável quando nada é inegociável.
O silogismo aqui dispensa diagrama. Se o partido não tem doutrina, então a candidatura não defende doutrina. Se a candidatura não defende doutrina, então o que ela defende, necessariamente, são interesses. E interesses, em política brasileira, traduzem-se em três sílabas: ver, ba, e a terceira que ninguém escreve mas todo mundo entende. Quem ainda se comove com o teatro das siglas confunde o palco com a peça. O Senado paulista, por sinal, custa caríssimo: estima-se que uma campanha competitiva ao Senado em São Paulo passe dos cinquenta milhões de reais, dinheiro que sai, em larga medida, daquele mesmo fundo eleitoral que cresceu como câncer enquanto hospital público carece de gaze. O cidadão é forçado a financiar a campanha de gente que ele nem sabe que existe, para escolher entre opções que ele não selecionou, num processo cuja lógica interna pertence a um clube fechado.
O apoio confirmado a Tarcísio é a cereja do bolo, e cereja envenenada. Tarcísio chegou ao governo de São Paulo com discurso liberal na boca e gestão tradicional na prática, terceirizando para o centrão a articulação política em troca de governabilidade. Costurar Podemos à sua base é, do ponto de vista tático, jogada de mestre enxadrista; do ponto de vista do eleitor que votou acreditando em ruptura, é mais um capítulo do mesmo livro velho, aquele em que o reformador chega prometendo limpar as cocheiras e termina vendendo o estábulo. As cocheiras, no fim, sempre permanecem. Mudam os cavalos, mudam os cocheiros, e o feno continua sendo pago pelo de sempre.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta deste país: quem paga e quem recebe? Paga o paulista que acorda às cinco da manhã para furar trânsito até o trabalho e ainda tem desconto no contracheque para sustentar uma democracia partidária que não o representa. Recebem os operadores da máquina, os deputados que viram senadores, os secretários que viram ministros, os marqueteiros, os advogados eleitorais, os donos de gráfica, os caciques regionais e, no topo da pirâmide, os capitais que já sabem qual nome apoiar quando souberem qual nome o partido escolheu. Palumbo ou Rufino é detalhe. O cartel segue intacto, se renovando como hidra, e cada cabeça que se corta nasce com nome novo no telão da Justiça Eleitoral.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.