Cem mil pessoas nos arredores de Luanda, poeira vermelha no sapato, sol rachando a cabeça, e um homem de branco dizendo à multidão que é preciso "olhar para o futuro com esperança" e denunciar as "catástrofes sociais geradas pela exploração desigual das riquezas do país". Belíssimo sermão. Comovente. A questão, que ninguém na transmissão oficial ousou fazer, é simples e grosseira como um soco: quem, afinal, exporta essas riquezas, quem assina os contratos, quem fica com a comissão, e por que é que depois de cinquenta anos de independência o angolano médio continua pagando gasolina racionada em cima de um dos maiores lençóis de petróleo da África? O pregador sobe no altar e fala em abstrato de "desigualdade", como se ela caísse do céu igual chuva. Não cai. Desigualdade tem CPF, tem conta bancária, tem passaporte diplomático e tem rota de jato particular para Dubai.

Angola é o laboratório perfeito daquele arranjo que já vimos em cem lugares diferentes, do México de Porfírio Díaz à Venezuela chavista, passando pelo Zaire de Mobutu. Chama-se capitalismo de compadrio, e funciona assim: o subsolo pertence ao Estado, o Estado pertence ao clã no poder, o clã arrenda o subsolo a multinacionais amigas, a multinacional paga royalties que evaporam em offshores das Ilhas Virgens, e sobra para o povo a honra de assistir ao desfile de 7 de setembro e a bênção pontifícia de vez em quando. Quando alguém pergunta onde foi parar o dinheiro, a resposta vem do próprio palanque religioso: a culpa é da "exploração", da "ganância", do "sistema". Substantivos abstratos são o melhor amigo do ladrão de bom paletó, porque não têm endereço para onde mandar o oficial de justiça.

Vale o exercício aristotélico mais banal do mundo. Se as riquezas do país são imensas, e se o país é pobre, então o dinheiro foi embora por algum lugar. Não evaporou. Não sumiu por mágica. Saiu por um cano, e esse cano tem nome, sobrenome e patente militar. A família dos Dos Santos, para ficar só no exemplo mais documentado, acumulou bilhões enquanto a filha do ex presidente virava a africana mais rica do continente administrando concessões de diamante e telecomunicações. Isabel virou capa de revista ocidental como símbolo do "empoderamento feminino negro". Depois o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos abriu a caixa, e o empoderamento se revelou o que sempre foi: saque patrimonialista com verniz de Davos. Mas na homilia de domingo, nada disso aparece. Fala se em "estruturas injustas", como se estrutura bebesse champanhe Cristal.

Há um detalhe que a reportagem piedosa não destaca, e deveria. Quem paga a conta da visita apostólica? Logística, segurança, palanque, som, hospedagem da comitiva, isenção de tributos sobre a operação: tudo sai do bolso do contribuinte angolano, aquele mesmo que não tem rede de esgoto na periferia de Luanda. O pobre financia o espetáculo em que o pregador lhe pede paciência e esperança. É um arranjo antigo, tão antigo quanto o Egito dos faraós, em que o camponês sustenta o templo que sustenta o trono que sustenta o camponês na obediência. Circular, elegante, e devastador para quem está na base da pirâmide. A esperança, aqui, cumpre a função do ópio que certo alemão barbudo já diagnosticou, só que administrada em dose homeopática para não matar o paciente, apenas mantê lo dócil até a próxima eleição.

Não se trata de atacar a fé dos cem mil que foram à missa. Gente humilde que caminhou quilômetros debaixo do sol merece respeito, não deboche. O alvo é outro, e está no palanque. É a simbiose milenar entre o poder espiritual que prega resignação e o poder temporal que pratica pilhagem, cada um lavando a mão do outro com a água benta da retórica humanitária. Quando o discurso oficial condena a "desigualdade" sem jamais nomear o regime que a produz, sem jamais exigir auditoria de contratos petrolíferos, sem jamais defender que o trabalhador angolano tenha o direito elementar de abrir um negócio sem pagar propina em catorze balcões, o que se está fazendo é decoração de vitrine. Crítica estética do saque, não combate ao saqueador.

A saída de Angola, como a de qualquer colônia interna do mundo, não virá de homilia nenhuma, nem de ajuda humanitária, nem de cúpula climática financiada pelo mesmo BNDES que financiou a Odebrecht que construiu a hidrelétrica que inundou a aldeia. Virá no dia em que o angolano comum puder ser dono daquilo que produz, puder vender sem licença, puder comprar sem alfândega amiga do ministro, puder guardar seu dinheiro numa moeda que não seja corroída para pagar a folha dos generais. Enquanto isso não acontece, cada missa gigante serve ao mesmo propósito das festas romanas no Coliseu: distrair a plebe enquanto o senado divide o espólio. O rei continua nu, o povo continua pobre, e a homilia continua linda. Quem pagou pelo espetáculo foi, como sempre, quem não tinha como não pagar.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.