A PAR Technology subiu ao palco do Goldman Sachs Communacopia + Technology Conference 2026 para anunciar o que virou liturgia obrigatória de qualquer empresa listada em 2026: avanços em inteligência artificial. O setor de tecnologia para restaurantes, que é o nicho da PAR, agora se vende como plataforma de IA, e a apresentação seguiu o roteiro previsível de otimismo com margens, integração vertical e promessas de eficiência algorítmica. Wall Street bateu palmas, o papel oscilou, e a manhã seguinte trouxe as manchetes de sempre sobre como a IA está transformando o mundo dos negócios.

Olha, tem uma coisa que ninguém quer dizer alto nessas conferências. A euforia com IA nas empresas de médio porte listadas não é fruto exclusivo de descobertas técnicas geniais. É fruto, em boa medida, de uma década de dinheiro barato que inflou avaliações, de subsídios pesados a data centers, de tarifas de energia mantidas artificialmente competitivas em determinadas jurisdições americanas, e de um sistema tributário que trata gasto com pesquisa como se fosse abatimento sagrado. Retire o incentivo fiscal, retire o crédito subsidiado, retire a energia barata negociada com governos estaduais famintos por manchete, e boa parte desse boom tecnológico revela-se dependente do braço estatal que finge não tocar.

A PAR Technology faz um produto útil, ninguém está negando. Software de ponto de venda e gestão para redes de restaurantes é serviço legítimo, e há empresa competente por trás desse ticker. O problema não é a PAR, é o ambiente em que ela opera. Quando o Federal Reserve mantém juros artificialmente comprimidos por anos e depois é forçado a subir, quando o Congresso aprova incentivos setoriais que redirecionam capital do onde ele iria naturalmente para onde o lobby quer que vá, o resultado é uma economia inteira que confunde estímulo artificial com produtividade real. A conferência do Goldman é a vitrine desse arranjo, o desfile de empresas que aprenderam a falar a língua que atrai o capital subsidiado.

Siga o dinheiro e a fotografia fica mais nítida. Os grandes bancos que patrocinam essas conferências vivem da intermediação entre poupador reprimido e empresa dopada por juro artificial. Os gestores institucionais que aplaudem na plateia precisam justificar a alocação em tecnologia porque foi isso que ofereceu retorno na década anterior, década em que o custo do capital foi manipulado para baixo por decisão política. E os executivos no palco sabem que dizer inteligência artificial hoje é o equivalente a dizer internet em 1999 ou blockchain em 2017. É senha para atrair capital que anda sem rumo procurando narrativa que justifique a próxima expansão de múltiplo.

O que se vê é o CEO da PAR falando sobre roadmap de IA. O que não se vê é o pequeno restaurante familiar que fechou porque não conseguiu competir com rede grande que tem software subsidiado, energia subsidiada, crédito subsidiado e a mesa inteira do Goldman torcendo pela sua expansão. O que não se vê é o poupador aposentado que perdeu poder de compra porque o dinheiro dele foi diluído para alimentar exatamente esse ciclo. O que não se vê é a inovação real, orgânica, que não aconteceu porque o capital foi todo direcionado para onde o incentivo político mandou. A tecnologia avança, sim, mas avança torta, e essa distorção tem endereço.

Quer dizer, a inteligência artificial vai mesmo mudar o mundo, ninguém em sã consciência nega isso. A questão é se ela vai mudar porque milhões de decisões descentralizadas de consumidores e empreendedores livres a validaram, ou se vai mudar porque um punhado de burocratas em Washington e alguns comitês do Fed decidiram que era o setor que merecia o crédito barato desta rodada. A diferença entre esses dois cenários é a diferença entre progresso e simulacro de progresso. E enquanto a PAR desfila no palco do Goldman, ninguém na plateia parece disposto a fazer essa pergunta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.