O presidente nacional da legenda foi ao Paraná no sábado batizar de "terra de resistência" o palco onde lançou as pré candidaturas de duas figuras que de resistente não têm absolutamente nada. Uma delas foi ministra da Casa Civil, presidente do próprio partido, deputada federal e senadora, transitando pelo aparelho estatal há mais de vinte anos com salário, gabinete, assessoria, verba de gabinete, passagem aérea e plano de saúde pagos por quem trabalha. O outro herdou o sobrenome do pai que governou o estado, foi deputado estadual, deputado federal e candidato a governador, ou seja, vive de mandato eletivo desde que aprendeu a assinar o nome. Chamar isso de resistência é o mesmo que chamar de jejum o banquete do rei.
Convém perguntar, com a serenidade de quem já viu esse filme repetido umas tantas vezes, contra o que esses senhores estão resistindo. Contra o orçamento da União que sustenta seus partidos pelo fundo eleitoral e pelo fundo partidário, somando bilhões de reais arrancados do contracheque do sujeito que acorda às cinco da manhã? Contra as estatais que serviram de cabide de emprego para correligionários durante os governos que comandaram? Contra o STF que decretou suspeição do juiz que ousou condenar o chefe da seita e devolveu o passaporte para o trono? Resistência, nesse vocabulário invertido, virou sinônimo de querer voltar para o lugar de onde nunca saíram de verdade.
A trilha do dinheiro, como sempre, conta a história que o discurso tenta esconder. O fundo eleitoral de 2026 deve girar em torno de cinco bilhões de reais, e a legenda em questão fica com a maior fatia, algo próximo de um bilhão, dinheiro confiscado de quem nunca foi consultado para financiar santinho, jingle e cabo eleitoral. Some se a isso o fundo partidário anual, os tempos de televisão pagos com renúncia fiscal, as emendas parlamentares carimbadas para padrinhos políticos e o ecossistema de ONGs conveniadas que vivem da torneira pública. O lançamento em Curitiba não é ato de resistência, é prestação de contas para os acionistas da empresa, e a empresa é o Estado brasileiro.
Há ainda a escolha simbólica da cidade, anunciada como provocação a um eleitorado que rejeitou o projeto nas últimas três eleições nacionais com diferença larga. Paraná é terra de resistência, dizem, justamente o estado onde a Lava Jato nasceu e onde o eleitor médio entendeu, antes da maioria, que aquilo que se vendia como programa social era na verdade um sistema engenhoso de propinas com sigla partidária. Voltar ali batendo no peito de vítima é exigir que o leitor esqueça o que viu com os próprios olhos, e essa é a operação retórica mais antiga do mundo, transformar carrasco em mártir pela simples força da repetição. Se a palavra resistência ainda significar alguma coisa, ela pertence a quem paga a conta, não a quem assina o cheque.
O silogismo é constrangedor de tão simples. Resistente é quem enfrenta o poder estabelecido; quem foi ministro, presidente do partido governista, senador e ocupante histórico da máquina é o próprio poder estabelecido; logo, chamar essa gente de resistência é mentir com cara séria diante do espelho. Não há sofisticação retórica que conserte premissa falsa, e a indignação encenada nos palanques curitibanos esbarra justamente nesse muro lógico que nenhum marqueteiro consegue derrubar. As coisas são o que são, não o que o comitê de campanha gostaria que fossem.
Sobra perguntar o de sempre, a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre política brasileira. Quem paga essa festa de lançamento, esse palco, esse som, essa estrutura de pré campanha que se arrasta por meses antes do prazo legal? Paga o motorista de aplicativo descontado na fonte, paga a costureira que vê o preço do arroz subir, paga o aposentado que perdeu poder de compra para a inflação que esses mesmos quadros chamam de efeito colateral aceitável. E quem recebe? Recebem os que nunca largaram o osso, agora travestidos de heróis perseguidos, pedindo voto para continuar fazendo aquilo que sempre fizeram, com a diferença de que dessa vez querem ser aplaudidos por isso.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.