O dragão-de-Komodo é um bicho que pesa oitenta quilos, corre a vinte e cinco quilômetros por hora, tem veneno no sangue e consegue se reproduzir sem parceiro quando a situação aperta. Atravessou o Pleistoceno, viu mamutes irem e voltarem, assistiu placas tectônicas redesenharem continentes e, em algum momento entre uma glaciação e outra, decidiu que a Indonésia era um bom endereço. Sessenta milhões de anos de currículo. Aí chega o século vinte e um e um comitê de especialistas, sentados numa sala climatizada em Genebra ou Nairóbi, declara que o bicho está "vulnerável". O lagarto que é, literalmente, o maior predador terrestre do seu arquipélago precisa agora da tutela de organizações internacionais financiadas por governos que não conseguem sequer tapar buraco de estrada.

Não se engane com a embalagem sentimental. A indústria da conservação ambiental é, antes de tudo, uma indústria. Movimenta bilhões de dólares por ano em fundos, ONGs, conferências, relatórios, consultorias e cargos comissionados. O dragão-de-Komodo não precisa de um plano de manejo redigido por um doutor em biologia marinha que nunca pisou em Flores. Ele precisa que o deixem em paz. Mas "deixar em paz" não gera emprego para burocrata, não justifica repasse de verba, não enche slide de PowerPoint em conferência da ONU. Cada espécie "em risco" é um cheque em branco para quem administra o risco. Pergunte-se: se o dragão deixasse de ser ameaçado amanhã, quantos empregos desapareceriam? Quantos fundos seriam cortados? Quantas carreiras acadêmicas perderiam o objeto de estudo? A resposta explica por que a lista de espécies ameaçadas só cresce e nunca encolhe.

O governo indonésio, que administra o Parque Nacional de Komodo, cobra entrada dos turistas, limita o acesso, regula a visitação e, claro, taxa. O parque gera receita. A "proteção" do dragão gera receita. O status de ameaça gera receita. Percebe o padrão? Quando o Estado descobre que um bicho dá dinheiro, o bicho vira patrimônio nacional, e patrimônio nacional significa monopólio estatal sobre o acesso. Os pescadores locais, que conviveram com os lagartos por gerações sem precisar de decreto, são empurrados para a margem. O turista estrangeiro paga caro, o intermediário burocrático fica com a fatia gorda, e o dragão continua fazendo o que sempre fez: caçando búfalos e tomando sol. A diferença é que agora ele faz isso cercado de placas, guias credenciados e uma estrutura de custos que ele, compreensivelmente, ignora.

Há algo de profundamente cômico, e ao mesmo tempo revelador, no fato de que um animal capaz de partenogênese, ou seja, de se reproduzir sozinho quando faltam parceiros, seja tratado como uma criatura frágil que depende da intervenção humana para sobreviver. O dragão-de-Komodo é a própria refutação ambulante da tese de que a natureza precisa de gerentes. Ele resolve seus problemas com a elegância brutal de quem tem sessenta milhões de anos de prática. Nós, que não conseguimos manter um sistema de saúde funcionando por duas décadas seguidas, nos arvoramos a ensinar resiliência a um réptil que inventou a redundância reprodutiva antes de o ser humano inventar a roda.

A verdade é que o ambientalismo institucional segue a mesma lógica de toda burocracia estatal: cria o problema, administra o problema, vive do problema. O dragão-de-Komodo não está ameaçado pela natureza, está ameaçado pela mesma coisa que ameaça tudo o que funciona sem permissão do governo: a incapacidade do aparato regulatório de tolerar aquilo que não controla. Se o bicho sobreviveu a asteroides, vulcões e eras do gelo, vai sobreviver também aos ambientalistas. A questão é se nós vamos sobreviver à conta que eles nos mandam todo mês para financiar a proteção de quem nunca nos pediu nada.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.