Alexandre Ramagem, o homem que dirigiu a Agência Brasileira de Inteligência, foi detido pelo serviço de imigração americano e agora depende da caridade política de Washington para não ser devolvido ao Brasil. O senador Jorge Seif protocolou junto à Embaixada norte-americana um pedido para que o caso receba tratamento prioritário. Parlamentares brasileiros, eleitos e pagos pelo contribuinte brasileiro, estão usando seu capital político para pedir a um governo estrangeiro que proteja um ex-agente do próprio Estado brasileiro. Releia a frase. Deixe o absurdo decantar.
A situação de Ramagem é um daqueles episódios que revelam, com clareza quase didática, a natureza real do poder. Quando ocupava a chefia da Abin, ele era o braço invisível do Executivo, o sujeito com acesso aos segredos, às escutas, aos dossiês que fazem ministros suarem frio e desafetos recuarem. O aparelho de inteligência estatal existe para isso: vigiar, catalogar, intimidar. É a essência do monopólio da força vestida de terno e com orçamento classificado. Agora que a roda girou e o ocupante do Planalto mudou, o mesmo aparelho que Ramagem comandou se volta contra ele. O Estado não tem amigos, tem funcionários temporários. E quando o expediente acaba, quem serviu ao monstro descobre que o monstro não retribui lealdade.
O que deveria espantar qualquer pessoa com dois neurônios funcionais não é que Ramagem esteja em apuros, é que parlamentares da República tratem um governo estrangeiro como instância recursal da política doméstica. Seif e seus colegas não estão pedindo justiça, estão pedindo que os Estados Unidos funcionem como porto seguro para quem perdeu a queda de braço em Brasília. É a confissão involuntária de que o sistema judiciário brasileiro, aquele que o contribuinte financia com bilhões anuais para manter tribunais, toga, motorista particular e auxílio-paletó, não merece a confiança nem dos próprios legisladores que o aprovam no orçamento. Quando o senador da República pede asilo político para um conterrâneo em solo americano, ele está dizendo, em linguagem diplomática, que o Brasil não é um Estado de Direito. E ele está certo, embora não perceba que também faz parte do problema.
A pergunta que ninguém faz, porque ninguém quer ouvir a resposta, é a mais elementar de todas: quem paga essa conta? O contribuinte brasileiro pagou o salário de Ramagem na Abin. Pagou a estrutura de inteligência que ele chefiou. Paga o salário de Seif e de cada parlamentar que assinou o pedido. Paga a embaixada brasileira em Washington. E agora, indiretamente, financia o circo diplomático de pedir a uma potência estrangeira que acolha um fugitivo político que o próprio Estado brasileiro produziu, treinou e descartou. Do outro lado, o contribuinte americano paga o ICE que prendeu Ramagem, paga o sistema de imigração que vai processar o pedido, paga os juízes que vão decidir. É dinheiro de gente real, dos dois lados, bancando a novela de quem viveu do poder e agora foge dele.
O caso Ramagem não é exceção, é regra. Todo regime que concentra poder suficiente para ter uma agência de inteligência com orçamento secreto e mandato elástico eventualmente produz refugiados políticos. É aritmética, não opinião. O sujeito que ontem grampeava opositores hoje implora proteção ao estrangeiro. E os mesmos políticos que votam pela expansão do aparato de vigilância estatal são os que depois correm para pedir asilo quando a máquina muda de mãos. Se houvesse um pingo de honestidade intelectual nesse debate, a conclusão seria óbvia: o problema não é quem controla o aparelho, é o aparelho em si. Mas essa conclusão exigiria abrir mão de poder, e poder é a única moeda que político nenhum aceita devolver. Então seguimos: o Estado cria o monstro, o monstro devora o criador, o contribuinte paga o banquete, e no fim todo mundo finge surpresa.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.