A cena é a seguinte: o Vice-Presidente da República desce ao porto de Santos para celebrar um túnel que ainda não existe, numa cerimônia montada, segundo os próprios aliados do governador local, "a toque de caixa". Tarcísio de Freitas, que administra o estado onde a obra será construída, não foi avisado com antecedência decente. Seus aliados reclamam, a imprensa registra, e o resultado é uma daquelas raras janelas em que o mecanismo por trás do teatro fica visível a olho nu, sem precisar de lupa nem de intérprete. O que você está vendo não é uma briga sobre engenharia. É uma briga sobre quem coloca o nome na plaquinha.
Siga o dinheiro, e a história fica nítida. O túnel Santos-Guarujá é uma obra que a população da Baixada Santista espera há décadas, cujo custo estimado supera quatro bilhões de reais, financiados com recursos públicos, isto é, com dinheiro retirado compulsoriamente de contribuintes que nunca foram consultados sobre a oportunidade, o prazo ou o modelo. Ninguém perguntou ao padeiro de São Bernardo se ele preferia pagar por esse túnel ou reduzir sua carga tributária. A resposta foi dada por ele, em nome dele, por pessoas que ele não escolheu diretamente para essa decisão específica. E agora, no momento em que a obra vira ativo político, dois desses representantes brigam em público pela certidão de nascimento de algo que nenhum dos dois criou com recursos próprios.
Os faraós do Egito antigo, pelo menos, tinham a honestidade bruta de mandar gravar o próprio nome nas pedras. Não fingiam que estavam fazendo um favor à população, não convocavam cerimônias para agradecer ao povo pela oportunidade de servi-lo. Havia uma franqueza cruel naquilo: o poder era declarado, não disfarçado de benevolência. O que a democracia moderna aperfeiçoou não foi a limitação do poder, foi a sua encenação. O governante contemporâneo pega seu dinheiro, financia uma obra com ele, convida jornalistas para fotografar o momento em que "entrega" a obra a você, e ainda espera que você aplauda. E o mais espantoso é que, na maioria das vezes, você aplaude.
A lógica do arranjo é simples e devastadora quando enunciada sem eufemismos. Se um projeto é financiado com recursos extraídos compulsoriamente da população, e um político reivindica o mérito pela sua execução, então esse político está, na prática, pedindo crédito por ter devolvido a você uma fração daquilo que primeiro tomou, depois de deduzir os custos da burocracia, os honorários dos intermediários, os contratos com empresas amigas e a taxa implícita da fotografia na cerimônia de inauguração. Chamar isso de "investimento público" é o mesmo que chamar de generosidade o ato de um ladrão que devolve metade da carteira roubada.
A briga entre Alckmin e Tarcísio é uma disputa de família por uma herança que não pertence a nenhum dos herdeiros. O que torna o episódio particularmente rico é que os dois vêm do mesmo campo político, compartilham o mesmo eleitorado base e, até recentemente, compunham o mesmo projeto de poder. A obra virou cunha porque obra virou moeda, e moeda divide sócios com uma eficiência que nenhum adversário externo consegue reproduzir. Quando dois políticos do mesmo lado começam a se morder pela paternidade de uma rodovia ou de um túnel, o que você está assistindo é ao mercado interno do poder funcionando exatamente como sempre funcionou: pela disputa de ativos que foram construídos com recursos alheios e que serão cobrados, nas urnas, como se fossem presentes pessoais.
O escândalo real não está na cerimônia montada às pressas, nem na briga entre aliados, nem sequer na disputa por crédito. O escândalo real é que construímos, ao longo de décadas, um sistema em que reivindicar a autoria de gastar o dinheiro dos outros é considerado não apenas legítimo, mas virtuoso. O político que inaugura mais obras é um "grande estadista". O que inaugura menos é "ineficiente". Em nenhum momento da equação alguém pergunta de onde veio o dinheiro, quem o forneceu contra a vontade e quanto custou o processo inteiro de extração, redistribuição e fotografia. Enquanto a pergunta não for feita em voz alta, a cerimônia continuará acontecendo, a toque de caixa ou não, e sempre com a mesma lista de convidados: eles na mesa, você na conta.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.