Paulo Guedes disse o óbvio, e o óbvio, no Brasil de 2026, ainda causa escândalo nos salões onde se decide o que o povo deve pensar. O ex-ministro da Economia declarou apoio a Flávio Bolsonaro, previu vitória da oposição nas eleições de outubro e observou, com a serenidade de quem acompanhou o movimento de perto, que a virada conservadora não é capricho tupiniquim. É fenômeno hemisférico, depois mundial. Argentina, Uruguai, El Salvador, Estados Unidos, partes da Europa que ainda não se renderam completamente à burocracia supranacional de Bruxelas. Quem olha para esse mapa e ainda insiste que se trata de "extremismo passageiro" ou não entende de eleições, ou entende muito bem e prefere mentir.
A lógica é brutalmente simples, a mesma que impera desde que os gregos inventaram a política como objeto de reflexão séria: governos que não entregam resultados perdem legitimidade. Não porque o povo seja ingrato, mas porque a função do poder político, por mais que os seus ocupantes prefiram esquecer, é servir ao bem comum e não ao conforto da casta que administra o erário. Quando a inflação corrói o salário, quando a criminalidade cresce enquanto o governo debate pronomes, quando a carga tributária sufoca o empreendedor médio e o dinheiro some em fundos partidários e emendas parlamentares sem prestação de conta decente, a conta chega. Sempre chega. A história não tem um único exemplo de sociedade que sustentou indefinidamente um aparato estatal voraz sem que o eleitor, em algum momento, botasse o pé na porta.
O que a mídia de referência, com seu vocabulário de manual de recursos humanos corporativo, chama de "onda de extrema-direita" é, na substância, algo consideravelmente mais banal e mais legítimo: é gente cansada de pagar a conta de um projeto político que nunca entregou o que prometeu e que, quando falha, culpa o mercado, culpa o passado, culpa a herança maldita, culpa qualquer coisa menos a incompetência e a desonestidade de quem assinou os cheques. A Argentina de Milei não surgiu do nada. Surgiu de décadas de peronismo que transformou um dos países mais ricos do hemisfério em uma república bananeira com inflação de quatro dígitos. O eleitor argentino não virou libertário por leitura de teoria econômica; virou porque o supermercado ficou vazio e o peso não valia o papel em que estava impresso.
Guedes, claro, não é figura isenta nessa história. Foi ministro de um governo que prometeu menos Estado e entregou déficit, que prometeu reformas estruturais e patinou em articulação política, que prometeu privatizações e viu o Congresso engolir a pauta inteira em troca de emendas. A crítica justa precisa ser feita. Mas a declaração de apoio a Flávio e a leitura do cenário de 2026 não precisam ser avaliadas pela biografia do declarante; precisam ser avaliadas pela sua aderência à realidade. E a realidade, teimosa como sempre foi, diz que um governo que chegou ao poder prometendo tirar o Brasil da estagnação e entregou desemprego alto, indústria estagnada e uma política externa que nos colocou no mesmo time de Venezuela e Irã tem um problema sério de renovação de contrato com o eleitorado.
A centro-direita brasileira tem suas próprias mazelas, suas próprias contradições, seus próprios oportunistas de última hora que vão enfileirar na foto quando o vento virar. Isso é dado. Mas a questão não é se a oposição é pura, porque pureza política não existe fora dos livros de utopia. A questão é se o eleitor vai preferir o que está ou o que vem. E quando o que está significa mais imposto, mais regulação, mais aparelhamento de instituições, mais retórica de classe e de raça no lugar de política econômica séria, a resposta que as urnas costumam dar não é difícil de antecipar. Guedes antecipou. Vai errar? Talvez. Mas errar com argumento verificável é diferente de acertar por decreto.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.